O LUGAR ANACRÓNICO DE UM TALHO – O ERRO (2020)

Anacrónico não o tempo mas o espaço. Queria pois, ter escrito isto há mais tempo, deixar as palavras deste modo, não fossem elas mais douras que o seu próprio sentido e o rasgo de lamento do que possam significar, mais forte e violável. 

Será este o lugar disruptivo que olhamos por sintoma do corpo. Cisão confirmada pela visão, anacrónico pela demora e desfasamento até ao encontro. Momentos após, situados, temos acesso à memória, e como no retorno à matriz, voltamos à matriz do lugar. Aí estamos, diante da verdade da sua existência mãe, a nu, a arca, o frio, o cheiro premente, o vidro e o metal, luz e espelho. Ali se vende e se ganha, produto a produto. Camadas duradoras do lugar, pudéssemos adivinhar a sua verdade e dali nunca saímos realmente. 

É esse lugar anacrónico de um talho sobre o qual estamos. Todo o lugar tem de si o seu genius, a sua espessura espiritual e mnemónica, a sua camada aureolar, e por isso estamos diante de um anacronismo físico, de tal maneira que se torna simples perceber como o tempo e o espaço são realmente duas matérias da mesma face. 

Os volumes, as palavras, as formas e as imagens, tudo quanto da matéria criada aqui se expõem, situam-se num lugar de tensões, onde a matéria da arte vibra numa perícia mágica entre a resposta que procura dar ao lugar, ou no isolamento em que se apresenta sem nunca negar o espaço em que habita. Tudo passa a ser do tempo.

Tal como vimos em tantos outros lugares, uma sentida teoria da adaptabilidade, que encontrou nestes lugares-ecoespaço de sintomatologia, que não se salvara nos grandes mausoléus do sistema. Lógicas de ação de um sistema alternativo, que nos alimentaram quando a cadeia central se demonstrara inacessível. 

A Ocupa não apresenta o emergente da produção contemporânea, como lugar desta genética, com mais ou menos desfasamento anacrónico, apresenta a matéria ativa da criação do presente, num tempo anterior ao que será, certamente, o do desfasamento nos lugares a cima. É essa a sua missão – no interior de um sistema de graus – não saber o ponto de partida nem o da chega, mas saber o tempo de ocupação que corre pelo meio. 

Estamos todos dentro, circulamos por entre novas camadas, quando a porta abre, entramos noutras imagens. A face da arte é a face da vida, erro o de nos esquecermos. 



Ao Alexandre e à Filipa, um ano de uma Ocupa.



João Terras, Casa (Abril, 2020)
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