(2020)
Aquilo que se diz por muito tempo, fixa-se. Dito e ditado, adágio ou aforismo, é como a água a passar pela areia lentamente, indefinidamente. É o mar que se escreve e nos escreve, é uma escrita das pedras e não uma escrita sobre as pedras.
O Adagiário de Alexandre Delmar vive nesta potência de imagem em persistência, estabelecendo não a natureza firme e aparentemente adquirida das respostas, mas pelo seu oposto, a frágil e solúvel natureza das matérias, e por isso, possível e potenciadora de uma máxima em cadência.
Frágil e resiliente são a matriz do adágio e o gesto prenunciador desta composição, que procura não ocultar nem revelar, mas possibilitar o entendimento no seio de diálogos solúveis.
Em cerca de quinze minutos o mapeamento fílmico existe enquanto ferramenta para um fenómeno de ressonância entre possíveis e presumíveis compreensões dos modos como somos e habitamos o tempo e o espaço, submetidas por final a uma sabedoria de vitalidade ancestral em que só o mundo se afirmará como linguagem.
O ensaio torna-se num léxico de uma ficção para o real, sendo o seu guião essa sequência arrítmica, não existindo pretensão de caminhar para alcançar as formas, mas antes mais, de existir nesse tempo da procura das formas (de falar com pássaros).
João Terras