8 LEGENDAS EXPANDIDAS PARA UM RELATÓRIO PRELIMINAR(2020)

ENSAIO 1
Praguejamentos e ameaças
Quando algo nos escapa e a boca não chega. O lábio treme numa velocidade cruzada com a linguagem que conhecemos. Estica-se a pele, voltam-se as veias. Enquanto o bode vai a única esperança é que volte. Mistura-se a necessidade de criar com a linguagem que o humano conhece. É a luta interior por nunca conseguirmos. O nascimento da violência está no silêncio.

ENSAIO 2
Chamamento e variações - Tomá, Bota, Chibo, Chiba e chibo variações

O primeiro momento é quando o silencio é interrompido. Até ali estavam as espécies lado a lado, uma chama, rompe o silêncio como quem toca no ouvido. Um “thce, chiba, tchbibo” um primeiro vulto, um antes de se formar. Também o corpo balança, não só a cabeça, tronco, ombros, pês, um ligeiro subir, sobe o corpo para projetar um “tche”. No ar toco o ouvido da cabra.

ENSAIO 3
Avisos e encantamentos – Assobios

O lábio encurta, a veia desce, o lábio graceja a traqueia não move. O que vemos é paisagem, é a transumância em seu pleno. Não à palavra, latir, existe apenas o vibrar, o vento, a queda das plantas, o rastejar dos seres. O lábio encurta porque tudo caminha na nave.

ENSAIO 4
Reprodução, assemelhamento e onomatopeia

“E nos capazes de permanecer no mundo sem temor” tanto tempo caminhamos que falamos para cima. Agitamos a língua para nós próprios, tentamos ser som pelo som, ser um corpo mais no rebanho. O tempo que corre atrás de uma montanha é da sua forma. Vemos a boca que nos desenha a paisagem.

ENSAIO 5
Batráquios e encantamentos

De fora para dentro, o ar não passa do dente. Tentamos o ciclo vicioso da voz, unimos língua e traqueia, deixamos de ser nós, passamos a ser um semelhante. Batráquio que falas. Tentamos o ar que volta, cantamos de fora para dentro. Tentamos de tudo.

ENSAIO 6
Atiçamento de cães

Agora já não há lobos. O que vemos é o cão deitado de frente para a montanha. O Zumbido procura beliscar a criatura. Mosca malvada é o som, silêncio que não me deixa.

ENSAIO 7
Assobios de ar

Queremos atingir o lugar onde sempre estivemos até aqui, o da não-linguagem, ou o de uma linguagem outra. Por onde já não mais sabemos ir, damos lugar à musculatura da traqueia, ao trémulo agitar dos lábios, procuramos no ar, nesse lugar do invisível que perdura e liga todas as coisas, procuramos no ar esse espírito das coisas, esse mágico sentido das formas. Ar. Ar.

ENSAIO 8
Aceleração de tempo e possível comunicação com pássaros.

Diria que somos tão somente aquilo que podemos ser no tempo que não controlamos. Tudo ao mesmo tempo, a nossa boca vira bico, a pele vira pena, o nosso sopro, cantar. Tudo ao mesmo tempo, num tempo além tempo. Não é a nossa voz acelerada que parece o cantar de um pássaro é o cantar de um pássaro lento que parece falar-nos a mesma língua. Pastor que andas à velocidade do prado, tens montanhas e caminho, o que te leva é o ar.




João Terras
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