Todos os dezembros, ou perto do final de ano, os que já lá vivem e os que para lá caminham, juntam-se na aldeia de Lagoa, na província histórica de Trás-os-Montes em Portugal. Não existe romance mais profundo do que pensar no que possa passar atrás dos montes. Fetiche primitivo e cénico que idealizamos com
premonição, aquilo que está para lá das montanhas sempre nos interrogou. As grutas não podiam ter ficado noutro lugar que não nas montanhas, as nascentes de água, as cascatas, as florestas, os picos, tudo isto está além, atrás das montanhas.
Como qualquer outro que, a todos os dezembros, viajava até Lagoa, Alexandre Delmar foi registando, aquilo a que chamaria “actos”, acto I, acto II, vários actos, foi redigindo uma possível historiografia heteróclita a partir das narrativas paralelas, dos contos, dos mitos, daquilo que ganha forma no lugar das coisas
informes. Naquilo que são as linguagens código, naquilo que é sabido entre uma comunidade e nas coisas que são da potência da intuição e da pulsão. História de dentro da boca e da fala, conexões entre humano e animal, humano e vegetal, vegetal e animal, animal e espiritual, humano e espiritual, gravitações que
reverberam nas práticas, nos fazeres e que por sinapse se estabelecem noscostumes.
Mas um acto, mesmo que inserido numa possível coreografia arrítmica e insubordinada que Alexandre tenta constituir de forma intuitiva, mesmo que seja um acto dessa possível historiografia do informe, um acto é ainda uma forma, uma coisa concreta, uma parte, uma divisão ou uma ação em potencia de algo. Por isso, se no centro desta galeria, está, já tudo aquilo que falamos no início, isto a que chamou de atos, nunca foram atos, nunca foram e hoje serão ainda menos.
Será um vulto, uma omnipresença, com ainda maior força, será um fantasma. E aqui chegamos, a uma possível resposta para o que andou todo o tempo a fazer, uma história dos vultos, de algo que existe inexplicavelmente entre todas as coisas e espaços.
A imagem, seja ela a partir da camara fotográfica, do filme, do som, do objeto, do conto escrito ou do desenho, a potência sempre esteve na tentativa de encontra um registo para o fantasma, de registar esse vulto, essa impossibilidade, essa alma
agregadora e indefinível que unia corpo, ação e espaço.
Isto a que poderíamos chamar a história dos vultos, em contrapartida à história das coisas, estende-se de lagoa a outros lugares, está na osmose da azeitona ao azeite, esta na mão das pessoas que vivem e que executam estes trabalhos de retirar da
arvore o fruto, está na teia da aranha que desenha a mesma forma que a cicatriz da manta, está no silêncio das arvores e dos animais que vagueiam. Está agora aqui.
Uma árvore não se torna génio por acaso, ela tem esse génio, essa alma. Por isso estaremos até ao fim, e sem fim, a escrever uma possível história de algo que não tem o humano no centro.
Ao caminharmos neste túnel paralelepípedo da galeria o ritmo da montagem primeiro vulto, vulto-manta, segundo vulto, manta-fruto, terceiro vulto, fruto- arvore, quarto vulto, vulto-montanha.
Esse vulto maior assola todo o centro, nesse centro onde está tudo. Essa manta que voltará para a montanha.
Por fim o silêncio, a isca, a transumância do artista do rio à montanha, do pescador ao pastor, o silêncio do homem em cima daquela pedra olhando o rio selvagem e o que se passa atrás das montanhas. Todos falam sobre a tragédia.
Ouvimos o rumor de que, num dos seus passados, o espaço da galeria foi o de uma fábrica. boaproa – Fábrica Portuguesa de Redes de Pesca.
João Terras