Uma página para " Solto as pedras mas não as ouço cair" de Alexandre Delmar para o campanice.
(2021)


“Sous les pavés, la plage” - debaixo das pedras da calçada, a praia. Esta foi uma das últimas frases inscritas nas paredes de Paris em Maio de 1968. Ainda que na definição de autor, anônimo é a melhor das suas possibilidades.
O sublime desta frase submersa na vertigem e rebelião de um corpo estudantil e de toda uma geração, deposita-se na potência imaginária de onde, por debaixo das pedras do chão, encontraremos esse solo livre, selvagem e indomável. Encontramos o chão árido, a área, a praia, o mar e o desmedido fim das coisas. A frase surge no fim, com a cidade ainda a fumegar e a respirar do correrio, surge no fim de longas semanas onde as pedras da calçada foram extraídas para arremessar, barricar, impedir e provocar um caos de que nenhuma outra revolução viveu sem. Pedras e montras em tremula polifonia.

Ao imaginar essa praia de Paris, não me é permitido desviar o olhar de todos aqueles que se baixaram para com a mão extrair uma pedra. A pedra e a mão, relação interina desde os primeiros tempos, a pedra e a escala da mão a mão e a escala da pedra.

Aquilo que a arqueologia narra é sobretudo uma história escrita a partir da natureza especulativa das relações miméticas da mão com as matérias primas, das quais a pedra é de si a primeira palavra.

Falemos em exercício, aquele que Alexandre Delmar daqui parte, resulta de uma extensa catalogação especulativa, surpreendente por continuamente se diluir nas ficções das pedras e não na sua natureza geológica. Entre as marmores e os granitos encontramos as mós, círculos plasmados em cimento utilizados enquanto ferramenta de polimento e segredo distintivo das práticas mais antigas e inovadoras dos trabalhadores desta cooperativa. Tudo o que vemos encaixa na mão, é medido à escala da mão, colhido à escala da mão, mapeando sobre a montra.

A montra que vemos é o novo atelier coletivo da Campanice que ocupa um dos edifícios pertencentes à Cooperativa de Produção dos Operários Pedreiros Portuenses. Um edifício de fachada para a Rua de Braancamp nas costas da grande arquitetura fabril da cooperativa, hoje desativada. Diria que não são as

ruínas ou os lugares desativados que perduram a história do lugar, por sua vez aquilo que produzem é uma recondução dos tempos para um futuro “pós condição presente”, retomando a origem e a natureza das coisas como num círculo. Aquilo que ainda verificamos nas encostas do edifício dos Campanice é o hiato de uma cidade, a sua margem agrícola a emergir novamente revelando-nos o quão a história é cíclica e impossível de cobrir.

Tão cíclica quanto a prática de um artista, que na sua autogênese, age enquanto investigador e narrador de estímulos que sempre se cruzam e levam a aproximar. Diríamos que as criações de Alexandre Delmar continuam a viver dessa gênese, encontram-se tal como os lugares, a história, as vidas num contínuo processo de recondução, de reconversão, e novamente, de encontro. Aquilo que vemos não deixa de ser um encontro, primeiro do artista com o lugar e depois, de novo, do artista com a sua obra.

O encontro especulativo entre as pedras e o lugar vazio da cooperativa no seio de uma cidade em autoconstrução, o encontro destas pedras e deste lugar com o lançamento das “lapadas à pastor” do lugar de Lagoa em trás-os-montes.
Nesta prova de vizinhança, entre o catálogo de pedras e as imagens estereoscópicas dos pastores a lançar as pedras enquanto instrumento de arremesso para controlo e chamamento dos animais, somos inteligivelmente posicionados sobre a matéria ardente das imagens e sua multiplicidade de origens, tempos e realidades. Diante de, montra, capital.

E num desvio astigmático, voltamos ao princípio, e de frente para estas imagens estamos de novo diante da calçada, as pedras da calçada, do seu fundo, a praia.


João Terras
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