(2021)
The Holy Crafts, instalada agora na Tag Team Studio, é um novo momento expositivo que expande os objetos e matéria gerados na residência artística realizada no Centro de Artes das Caldas Da Rainha e que dá seguimento a“An ambitious project collapsing aka The 5th wheel” projeto desenvolvido entre a Cidade do México e Oaxaca no ano de 2019. Ser novo é na verdade um paradoxo na obra da artista, isto porque o sentido de recompor, remarcar, revisitar, são sintomas do seu código genético, mesmo que longe de matrizes ou enunciados predefinidos.
Não se poderá dizer que o seu modo de operar se encontre num quick fixing, ou se centre no trivial aproveitamento ou recuperação. Poderíamos por tentação, aproximarmo-nos do Design -- disciplina esta cuja artista pensou estar ligada no início do seu percurso, sem que soubesse, que ligada esteve sempre à etimologia desta palavra, a onde encontramos a locução, Desenho. Porque na sua obra, tudo é desenho, tudo é derivado desse gesto matricial, onde tudo nasce, onde tudo é ainda poroso, onde tudo é movimento e mão.
A trivialidade e alienação das suas vontades, por mais intuitivas que estas sejam, estão mais próximas do sentido da releitura o mesmo que dizer da adaptação, da ficção.
São gestos da natureza do recolher, de operar a partir do desconexo, do fracturado, da sobra e da margem.
E porque existe sempre um sentido de inacabado em cada composição escultórica que nos apresenta -- como é mais uma vez o caso nesta exposição --- existe também por desordem, um sentido da armadilha -- de algo que se compõe, não propriamente para caçar, enganar ou iludir, mas antes algo que urde o tempo e as coisas como cilada, e suspensão do que está por vir.
Não estará, por isso, a artista -- em cada papel machê, em cada assemblagem de formas e objetos, em cada desenho ou ilustração -- longe do sentido mais puro e vital do artista-arqueólogo, do artista que traz à luz, que duvida da natureza e da veracidade dos objetos, que ironiza as suas possibilidades e diálogos. E porque o objeto artístico tem uma deriva no objeto arqueológico e porque tanto o artístico como o arqueológico tem uma deriva no objeto mágico, tudo o que se compõe no mundo pretende obter uma carga de energia desse significado enigmático tão latentes a esta obra.
À la ville comme à la campagne, hier comme aujourd'hui, est toujours le même, le geste de glanage. (Na cidade como no campo, ontem como hoje, o gesto é sempre o mesmo, o gesto de respigar.) Assim fala connosco Agnes Varda numa das suas mais belas obras, o filme Les glaneurs et la glaneuse (1999), à qual poderíamos ainda acrescentar: «o gesto de respigar é sempre o mesmo», o de baixar, o de descobrir e de saciar.
Porque desde o início dos tempos, os respigadores, os recoletores, os xamãs, os sacerdotes e até os feiticeiros são seres deste mesmo gesto, o de baixar para erguer, o de colher e plantar, o de compor para aceder, o de unir para energizar.
Continuará, assim, Ana Rita António neste mesmo gesto de respigar, que é o mesmo que o de desenhar, o mesmo de costurar, o de modelar, o de compor e, por fim, o de o corpo ocupar.
João Terras