Imagens Proscristas - O Interdito e o Escuro
(2021)


A gruta de Marguerite Duras é em Matera. O Homem só, diante do oceano, sabido pelo desenho das mãos, unas, únicas, sós. O Homem da Gruta de Duras é o Homem de Matera. Da terra da origem e de todos os tempos. É o Homem diante da imensidão, do intocável, insustentável, do proscrito. A palavra por inventar, o corpo do outro por revelar, essa potência do outro por vir. Um lugar com todos os tempo e todas as suas falências, maldito e proscrito, selem-no, escavem-no, tampem-no a nu.

Esses lugares e corpos fora da história num lugar indomável, num lugar de ravina, onde as coisas findam. Espelho desse outro lugar nessa outra ponta de Itália, humana e célebre, onde Cristo parou (Cristo Parou em Eboli, Carlo Levi).

A partir daqui todas as imagens são desse lugar diante de. Todas as imagens ou nós próprios, somos a partir daqui, esse caminho de penhasco e gruta, tal como se abre esta porta, gesto divino e revelador, iluminando a imagem, trazendo-a à luz, revelando-a. Todas as pinturas se tornam sombras, todos nos tornamos esse alguém diante do outro ou do vazio do oceano. Tornamo-nos diante de. Gritando por alguém ou esperando a sua vinda, ou quem sabe, vendo apenas a forma das suas mãos.

Todos os lugares são essa morada subterrânea de que nos falava Platão. Todos os lugares são essa alegoria entre luz e sua ausência, corpo e sombra. Mais do que o saber da longevidade da pintura daquelas mãos, da sua astúcia, da sua voracidade, da sua tensão, o que nos palpita em toda a matéria criada é esse saber fantasmático da presença do corpo e sua especulação. A vida daquele possível corpo diante do oceano, essa hipotética história, esse mito inflamável sustenta todas as possibilidades de nos encontrarmos com o outro a partir das imagens. Esse encontro a partir dos desenhos que agora olhamos e nos aproximamos, esse encontro não somente com a sua resposta mas com a possibilidade da sua fala, inflama-nos.

E os interditos estavam por todo o lado, a repousar em todas as escarpas, nestas luas, sóis, corpos, lentes e figuras, nesse mar, por todo o lado como na conversa entre Sócrates e Glauco, como na chega de Bataille à gruta de Lascaux, como nas mãos Magdalenianas das grutas. Os interditos estão por todo o lado, nas janelas negras, nas casas fechadas, no subsolo. O Interdito, o negro, a ausência da luz, tal como o é na ausência da forma. Os interditos estão em toda a matéria, em toda a matera criada. São todos os desenhos, as formas, os volumes, as pinturas que já vimos ou nos contaram.

Quando retiramos uma pedra da parede ou do chão acedemos ao seu corpo vazio, ao seu interdito, à sua forma da escuridão, ao seu todo. Iluminar é o mesmo que retirar. Iluminar ou trazer à luz é próximo do gesto de extrair, podendo então reescrever uma nova posição do nosso sentido para a história. Uma história do vazio e não da soma.

A Caverna desta exposição é também, se não mais, a tenda dessa gravura, o tabuleiro e os jogadores diante do jogo, da iluminação e do medo, todas essas dimensões que o compõem, essas luzes do tigre, esse olho no olho, longínquo, a imprevisibilidade, o mundo inteligível do ócio, a suspeita. Durante longos anos foi o ócio e o jogo proscrito, imoral por convocar o irracional e o desnível, por desconcentrar. Talvez por isso, em mil gravuras, frescos e paredes, encontramos alegórica, metafórica e mítica a representação do jogo no seu máximo poder do simbólico. O jogo como campo bipolar, duas faces, dois corpos, mundos, mudos, frente a frente, oposição e visão, choque e contraste. No jogo jogamos os mundos ao seu diálogo e confronto.

Aquele que aqui nos dá a ver, soma, como todos os que criam, corta e coze, une matérias, une imagens, compõem e redige. Como há mil milhares de anos, todo o desenho, agora imagem em movimento, tela luz, tela forma, é se não a escrita

dessa história condenada ao inexplicável, uma história de subtração e não de acumulação, uma história do avesso e de erosão, mapeada pelo desenho do outro sobre o mundo.

Expor é como ocupar uma Terra diaba diante da imensidão do oceano. Encarando os olhos do animal selvagem, do amante, do outro.


João Terras
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