PÓS-BIÉNIO - O Tempo de uma bienal nos labirintos da saudade
(2021)


Nos labirintos da contemporaneidade arquitetar um lugar de encontro é reconduzir os corpos a uma outra condição de diálogo e relação.
Diríamos que na época do contemporâneo o ser têm se constituído numa autogênese, reproduzindo-se em sinapses de contacto, desfocando a vitalidade e a exigência dos corpos, numa deriva fantasmagórica diluída em imagens de si numa absoluta urgência da potência do encontro e suas atmosferas físicas.

Sabidos de que a velocidade de acesso e informação não matizam o conhecimento nem a perceção do problema, modelamos o mundo à cadavre exquis, como se o tempo, o território e os corpos fossem palpáveis a todos os instantes, sendo vital a gestação de lugares de absoluta pausa, acalmia e lentidão para um processo de continuidade.

Em tempos de visionamento e previsão, de ponte e transição, de pós e prés, o ensaio curatorial desenhado para a nova edição da Bienal da Maia, comissariado por José Maia, em trânsito intervalado de 20 e 21, propõe, no preciso instante, um lugar transicional entre sujeitos e sociedades, em eco: o espaço para se ser “sujeitos” num espaço mais longínquo para o ser em “sociedades”. Sujeitos múltiplos, sociedades outras.

E nesse olhar picado sobre o tempo do agora, é no território da Maia, no norte, em Portugal, que esse olhar é revisitado, relido e projetado, atravessando os labirintos da saudade de que a memória constituirá uma nova deriva para a História.
E a pausa que estabelece com o tempo estabelece-a no instante do seu quotidiano, auscultando quais os corpos e quais os lugares, quais as imagens e quais os sons, quais os locais de trânsito e quais as pausas, que corpos percorrem o tempo, o que transmitem, quem e o que modelam, que memórias emergem, que falas, cantos, mãos, unos e múltiplos, agindo enquanto fonógrafo das suas identidades.

A cosmologia do termo Ágora, de Homero a Roma, prevê na sua diáspora plural um consórcio de corpos de todas as naturezas, humanas e animais, psíquicas e mitológicas, divinas e científicas, no sentido de pluralidade e encontro, dramático e entrelaçado, ficcionado para aí podermos reescrever o real.
Tal como pólis e polifonia, ágora e agora encontram na sua génese etimológica a razão plural pela qual nunca acedemos ao conhecimento absoluto.

Enquanto projeto curatorial para uma bienal, ÁGORA não se apresenta enquanto constelação, os pontos de ação e exposição não partem de um centro para a sua expansão. A sua genética polifónica garante uma outra condição de constituição, gravada nas perceções de uma sociedade de língua bífida e daí talhada sobre um sentido de extensão. Não existe centro nem central, prémio ou principal, o centro dos eventos e propostas de programação gravita de forma polimorfa irradiando pelas peles de encontro do lugar público e político da cidade e além. No Fórum da Maia, galerias e auditórios, nos espaços exteriores públicos e políticos, no jardim central e nas ruas, nos lugares da mão e da boca, nos ecrãs e nas telas, no jornal e na rádio, na televisão e na estrada, no digital e online.

Quanto ao tempo, não tendo a criação um tempo bienal, tendo o tempo seus biênios e a arte a sua fala, é nessa condição que esta nova edição da Bienal se propõe, enquanto pós-biénio, anual e secular, temporal e social, lugar de vinco e transição colocando a tónica das suas intenções num olhar onde a revisitação da memória e o sentido de transformação são constantes.

Olhar esse agora na emergência das narrativas e representatividades dos corpos, coletividades e sociedades, pulsando pela voracidade das políticas e dos sujeitos é consignar o espaço de uma bienal aos lugares da vida, lugares onde consta que a arte se matiza.

Na raiz do projeto curatorial entende-se também a métrica dos lugares de criação e apresentação somada a um novo palco para aquela que será a nossa perceção diante os lugares de mostra e exposição, evento e espetáculo, unindo e mesclando, das performances aos cartazes, da escrita à crítica, do observador à mediação, da investigação à captação, das exposições ao design, da comunicação à projeção, compondo esse lugar de encontro com o outro de forma constante e permanente. No agora será esta a condição a que ainda se permite a existência de uma bienal, a de provocar um encontro para continuarmos a caminhar.


João Terras
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