a ser
(2020)


sentamo-nos juntos, não nos tocamos, mas algo está aí, sentimo-lo entre nós, como uma presença.

John Fire Lame Deer - Woniya, Woniya, Wakan - Seeker of visions

Posição vertiginosa esta que ocupamos em circulação. Um passo a mais e estamos dentro. 

A sequência não é rítmica e as obras que compõem esta narrativa costurada a várias mãos são também elas de natureza desviante. Obras onde não podemos situar a sua permanência, onde não localizamos o seu o tempo e espaço, matérias de uma pertença indomesticável e libertadora. Obras laboratório e experiência, obras erro e queda, obras segredo, mistério, ilusórias. Circulamos tal qual a lógica de John Fire Lame -- xamã/santo indígena -- quando nos fala do lugar indecifrável e submerso do ar : o ar como melanina do espírito, como a magia da alma, o ar como a energia da comunicação do não visível, como ser sem forma, cor, direcção. Comunicamos sem nos tocarmos, sem que as obras se toquem, ocupando um lugar de trânsito na comunicação rasante por entre as coisas. Existe no lugar destas criações algo de indecifrável mas dialogante, que comunica por si e na potência de si, algo existe na sua distância individual e as une num gesto coletivo, para dimensionar a sua natureza admiravelmente instável, como qualquer criação o é, instável, por vir, a ser. 

¾

O erro assimétrico da percepção de um lugar é convocado no primeiro olhar pela natureza porosa e infinda das estruturas que nos recebem. Os volumes escultóricos de Rui Mota são por sua natureza anti-formas, corpos híbridos, paredes a ser, barreiras a ser, muros sem muros, passagens e acessos não velados. Arquiteturas sem distâncias nem limites, lugares de ruína ou constructos por nascer. Esta tensão de dupla leitura afirmam o lugar da escultura de Rui Mota como um lugar de procura, de expansão, escultura chão, ar, volume performático que impele o corpo do outro a sua própria existência. Nessa habitação da obra conseguimos relê-la e revisitar o mundo à nossa volta. 

ISOCHRONE (0200); Exercício (16) — a tentar alcançar o planeta vénus

Na ponta oposta à entrada, em linha de corredor de passagem, a obra de Carolina Santos Grilo instala-se na matéria do ar, em diretriz dupla, árida mas não menos estéril. Imagens que subsistem entre a verdade e a mentira revisitando o modo como percepcionamos o mundo. 

ISO - Iguais; CHRONOS - Tempo.

Sobre o chão, essa linha isócrona -- que mede a distância entre pontos em espaço e tempo ou que por outro lado mapeia pontos onde algo ocorre ao mesmo tempo em lugares distantes. Esta noção ageográfica, de que os lugares são além geografia unos por um tempo comum, será a mais palpável verdade de uma inegável mentira.  Por outro lado,  em curva oposta, o gesto do desenho sobre metal dourado defrauda-nos a leitura permitindo-nos decifrar a indecifrável inscrição de um exercício que é desenho antes de qualquer significado. A ser ambas as linhas, as do chão e as da chapa, são desenho, a ser.

Paulo I; Paulo II

Em duplo anonimato, surge pela mão de Miguel Flor, as costas e o retrato nebuloso de Paulo Lisboa. O  lugar duplo, o lugar do outro como pertença libertadora, o outro em mim, ser-secreto em corpo frágil.  Quem reconhece a obra do artista Paulo Lisboa, retoma-lhe o mesmo sincretismo, o mesmo silêncio e anonimato, a mesma extensão e potência. A obra de um artista que submete a imagem a sua sublime potência e inexatidão, a resistência da mão pelo gesto do desenho. A grafite nos desenhos de Paulo Lisboa tal como as suas costas neste retrato, por findar, destemido, pleno da sua indefinição, imagem de Miguel por ser, o desenho de Paulo por vir.

pneuma

Existente em matérias animadas e inanimadas, Pneuma é um termo do pensamento antigo grego com origem no sentido ar e da respiração, por isso, da existência e vitalidade. É uma terminologia que encontra paralelo em outros pensamentos da humanidade e que convoca uma natureza semelhante à proposta de John Fire Lame. O ar une o Homem ao cosmos, une as coisas ao mundo e une-as entre elas.

As imagens de Inês Fernandes são imagens luz algures entre a poética e o mistério ficcional da alma animada das coisas. Numa releitura encenada, as imagens pose de Inês comunicam a presença do corpo na sua ausência e reclamam a presença de um outro espírito aparentemente existente sobre as coisas. São imagens com uma camada que nos remete para lugares por vir ou para a falibilidade de nunca existirem na realidade.

Dores no pescoço

Na memória existe esse espaço de lapso e manipulação que nos permite ensaiar novas derivas e polos de alteridade a narrativa e ao próprio conhecimento sobre o mundo e sobre as coisas. O ensaio videográfico em loop de José Costa, revela-nos a potência ardente do lugar do arquivo.  Numa dinâmica de manipulação, revisitando o passado e a intimidade,  é delineada uma nova métrica e uma releitura da história. Real ou ficcionalmente a matéria de vídeo torna-se aqui tão frágil, instável e porosa como qualquer outra matéria.

sem saber ler nem escrever

É o sentido quimérico da afirmação que paira sobre as formas inexatas de Luís Ramos. Existe algo de jovial, de efervescente, de descontrolável, nos corpos escultóricos embrionários que aqui apresenta. Formas em câmbio entre a figuração e a abstração, sintonizadas em lugares de indefinição abrindo o jogo à potência da significação. Em último grau o reconhecimento e a proximidade pela estranheza, o arquivo de imagens de quem olha, a relativização das lembranças para acedermos ao significado destes objetos. A ser, a estranheza é um corpo de silêncio.

Duplicates

Num percurso interminável, olhamos a fim, de um para o outro, no lugar do limite, de novo a paisagem. A instalação de Catarina Braga percorre o ar de todo o lugar para se miscigenar com a sua própria morfologia. Não deixa de se tratar de uma intervenção calculista do erro de narrativa que procura  provocar sobre este lugar, sobre a sua memória e identidade. Como um corpo estranho e de natureza mimética as não-plantas de Catarina percorrem o canteiros do pátio numa errática deslocação geográfica silenciosa. Natureza inanimada por fim tão ao mais débil que a própria, certamente, menos instável, menos vital, menos respirável, menos ar.

Diante desta enorme campânula, entre o ponto limite - o vidro -  e a obra, um passo a mais e estamos dentro. 


João Terras
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