“Ao que se sabe, acrescento, faltava falar”
Ensaio para Coletivo interStruct em Íntimo a político: um avatar coletivo
(2022)


É o avatar coletivo que a InterStruct aqui procura. E para aqui chegarmos permitam-me que também eu surja nesse avatar, que também eu indague pela procura da história, pelo cruzamento de memórias pessoais e coletivas para, polifonicamente, múltipla e convexamente tentar relatar um desses discursos astigmáticos da história, onde descemos ao escuro, onde acedemos à ausência da luz, para aí nos ser possível olhar a nu, a cru, despir a história e as histórias, e narrar na procura de uma voz que não uma.

Quando nos contam algo a primeira coisa que penso é de que a história se deveria contar com todas as vozes ao mesmo tempo, com todas as mentiras ensimesmadas, com todos os delírios em colapso. E quando não sabemos da história a única forma que eu vejo de vê-la ou escrevê-la é numa assemblage de potências, no caos.

Quando penso em construir uma história coletiva, lembro-me da cultura moche que existiu no norte e centro do Peru entre 80 a.C a 870 d.C. Quando me falaram pela primeira vez dos Moche começaram por dizer: “ao que se sabe”. Ao que se sabe é o mesmo que dizer que ainda existe tudo por saber. Dos Moches apenas nos chegaram os objetos, os desenhos e as pinturas, todos os escritos, corpos, casas e ruas, foram seladas por aqueles que chegaram àquela terra e se permitiram escrever sobre a mesma. Mas a História conta-nos que é irreversível, e também para escrevermos sobre a história dos Moches só o podemos fazer a partir de imagens, como o fazemos na arqueologia. Para falar da história dos Moches precisamos de que todos olhem aquelas imagens, falem com aquelas imagens e digam daquelas imagens. E ainda assim dos moches só sabemos as imagens.

PAUSA

Quando temos mais do que dois olhos passamos a ter um espelho e aquilo que o coletivo InterStruct nesta galeria apresenta é um espelho, múltiplas camadas de ecrãs e formas constituindo um mesmo filme com desviantes narrativas. É esse o olhar astigmático que falava em cima. Estar dentro de uma história como num espelho, olhando-nos e olhando-os, é esse o primeiro avatar, o espelho. No espelho somos o que não vemos, é o lugar mais próximo do espírito que encontramos, é o lugar mais próximo do híbrido onde podemos estar, é o impalpável, não por acaso é o espelho a matéria usada em muitas das magias, das máscaras, das sacralização e profanações, e tanto mais aqui diríamos, por fim, um espelho coletivo seria um espelho com muitos ângulos.

É no lugar da potência do conto que Desiree Desmarattes em Krik Krak se permite aceder à potência tanto da forma de contar do outro como do que nos chega do outro, tal como quando Miguel F olha a casa para olhar a cidade em working class zeroes (#1 + #2), tal como quando Natacha Bulha revisita as memórias e heranças para narrar o plural a partir do singular em A cal da nossa casa e Aterra em Terra, Enterra A terra, tal como quando Claire Sivier, no video The Journey Home?, explora as conectividades entre passado e presente das comunidades centrado nas ancestralidades, quando Vanessa Fernandes em Every em Every monster needs a place to stay olha a gravação na escrita no corpo como algo irreversível mas irreflexivo, tal como Vijay Patel em Irmãos Quimera se ensaia nos mitos e nas quimeras, lugar esse da única verdade, ou ainda no Poema escrito e visual de

Odair Monteiro da máscara à pele, no espelho convexo que é esta instalação, estamos todos a olhar a história a partir da raiz, como se ainda fosse possível com este esforço escrever sobre o irreversível.

Como diria aquele velho, sobre esse esforço, “ainda há tempo”.

João Terras, escrito numa casa caiada em Olhos de Água, Algarve
Website developed by João Terras with Cargo Collective.
All rights reserved for original content.