Felícia Teixeira e João Brojo
(2020)
Não são as formas que reduzem a representação do real, o real è já de si iconoclasta supre mático, é já de si possibilitador e irrepresentável. Só o representaremos se o real fosse por si algo sem espírito. As formas, os desenhos, as composições, os tempos e os movimentos, são películas de entre o olho e o espírito1, de entre o olho de quem olha e o mundo em sim. As formas e composições são essa fina membrana, os pontos de fuga desta trajetória.
As imagens mapeadas em YAH já não ocupam o MIRA, nem a galeria é de si o lugar destas imagens. Mesmo que saibamos a natureza delas, que lhes associamos significados e identidades, que adivinhamos as marcas e bandeiras, os fragmentos de objetos, e tanto mais, é ainda pouco para fechar o ciclo da existência delas. Chamar-lhe-ia a este sentimento da atração da imagem, perigosamente ciente de que, a imagem é já ela uma atração de quem nos dá a ver.
Podemos também aqui perceber, por tais razões, dois importantes graus da prática de Felícia e Brojo. Por um lado a cadência e o estímulo pelas partículas distintivas do real e por outro a perceção da potência transformadora desse primeiro estímulo. Não existe persistência, maturação, construção, as imagens que aqui vemos e que compõem muita da sua prática artística proclama essa mesma ardência do real e da imagem, um universo que existe em constante mutação e estimulação, transformação e peculiaridade.
1 O olho e o espírito (1960) de Merleau- Ponty, aqui, pela cadência que o filósofo francês talhou sobre o olho e a imagem após do pintor. Ampliação do sentido do que vemos e do que representamos.
As imagens são também elas o green screen em que habitam, potenciais, próximas na distância do seu significado, estimulantes pelo seu vertiginoso estado de falência.
Por isso o mundo ascético é o que dele desejamos, tal qual qual o desejo de sabermos que estas formas são mais do que aquilo que achamos já saber. Todas as formas criadas são senão matérias fantasmagóricas da sua própria realidade, um green screen do mundo, sendo essa tela verde o mesmo lugar do olho que Ponty nos falava, a distância de ser tudo aquilo de que sabemos ao certo não ser, mas que, por completo, nos são ainda mais vitais.
João Terras