É necessário olhar um desenho muito tempo, até ver a mão
(2022)


No início, a linguagem criou a coisa e depois tudo o resto.
Com o tempo a coisa sobrepôs-se à linguagem, e no fundo, logo veio ao de cima a nossa impossível relação como aquilo que escapa, com as coisas invisíveis.
Voltando ao início, a nossa impossível relação com as coisas não visíveis.
Começou logo com a fala, com aquilo que o humano se apercebeu que emitia pela boca, o som, a vibração da língua, o eco do crânio e do lábio. Foi a voz o primeiro espírito, a primeira coisa que escapou à visão. Depois a linguagem e depois a escrita, ou vice-versa, para podermos estar entre conhecidos, pois sem isso sem a descrição tudo é desconhecido e tudo é abismo. Mas primeiro de tudo, o desenho, esse que existia antes da comunicação e que continua a existir.

De forma sucinta diria que o artista, aqui, se recorre à reinvenção da linguagem não será porque procura uma nova mas antes mais porque procura existir nesses lugares onde ela não é capaz de tocar. Farto ou não das gramatologias que formulam a linguagem e depois os discursos, e depois as perguntas, as respostas, os pensamentos e as ideias, a tese do artista, aqui, é a de se libertar das teses produzidas pelo discurso.

O que dizer de uma obra política, o que pensar de uma obra de discurso. Recordo-me, nunca conheci na verdade o filósofo Bataille, mas mais do que a reunião de palavras nos seus textos, recorda-me a verdade do entusiasmo que sentiu ao entrar na gruta com os primeiros desenhos do mundo na parede. Todos os desenhos são os primeiros do mundo, mas aqueles foram produzidos antes da criação do discurso, por isso devem à linguagem apenas o espaço que ocupam.

É necessário olhar um desenho muito tempo, durante muito tempo, para conseguirmos ver a mão, ver o tempo que aquela mão levou, o tempo em que ela subiu ou desceu, o tempo em que era linha e passou a paisagem, o tempo em que ocupou o espaço. Não será poético demais, não quero que o seja, dizer que o desenho nunca começa, porque nunca começa na verdade, ele começa nesse lugar não visível e como não responde a uma grafia, a umaverbalidade, a ordem do desenho não é a do início e fim. O desenho nunca é só um, mesmo que a mão faça só um gesto. E quando passamos para a dança e o corpo, o uso de objetos para chegar ao desenho, a junção de formas tridimensionais para compor um desenho, um desenho é sempre toda a matéria que vem antes de efetivamente o próprio, por isso, um desenho é desenhos.

Porque é que o desenho importa ao mundo, porque é que a linguagem importa ao mundo, isso é o mundo, o resto é que se importa ao mundo.

Se formos precisos seja qual for a forma, o “arame farpado”, o magnetismo das letras, o volume das letras, a performance, tudo que, partindo do desenho, se desdobra e rebate, Fernando Sebastião tem trabalhando nesse lugar moribundo da linguagem, ou melhor da metalinguagem, todas as coisas já lá estavam antes e interessa esse lugar onde a comunicação se liberta.

Não foi acaso, o título ter uma matriz proverbial, esse foi o primeiro título, o título final já não é o que vemos, é outro, mas o primeiro título foi o que me fez escrever este parágrafo. Pensei o texto todo, o que seria do texto sem os ideogramas, sem estas grafias, sem estes alfabetos, escrever para o vazio ainda assim não basta, em último caso, pensei, para a salvação da vontade de escrever e para a vontade de que este texto exista, o melhor seria, que também o pudéssemos olhar enquanto um espaço onde, meros signos, juntos, formam um provérbio no meio de um possível alfabeto, no meio de uma possível linguagem. Sem o raciocínio, sem a tradução.

Nunca tinha visto os desenhos das multidões e das conversas, o desenho também cria imagens. Foram os novos desenhos que vi no instante antes dos primeiros.

*este texto acompanha as imagens das obras do artista visual Fernando Sebastião, como uma legenda num filme.


Escrito em Casa na Rua de Santo António em Guimarães
João Terras 
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