(2022)
Já te havia prometido um texto, e quantas falhas. Quando os limites estão próximos ainda bem que tive a sorte de não escrever a partir de nada para conseguir neste lugar de escrita escatológica poder escrever sobre tudo o que vibra nesse lugar que tentas criar.
A possibilidade de escrever para um morto não é o mesmo que um morto revelar aquilo que ficou por dizer. Falar com um fantasma não é o mesmo que ouvir de um fantasma. Num lugar falamos do real para a morte, do outro falamos da morte para o real. Ainda assim nos sugere ser o mesmo.
Se pudéssemos voltar a falar com o fantasma de Giuseppe Pelosi (1958-2017), o eterno jovem italiano que confessou, nesse lugar inquestionável onde mora a verdade da vida, ter assassinado Pier Paolo Passolini (1922-1975) na zona costeira do Lido di Ostia em Roma a 2 de novembro de 1975, aquilo a que talvez tivéssemos acesso seria a história de um fantasma a contar-nos a história do momento da morte do cineasta italiano entre o carro e o chão do parque onde o seu corpo apareceu morto. Sobre a morte num todo nem mesmo numa filmagem conseguiríamos a verdadeira imagem. A literatura vive dessa relação e conflito com as verdadeiras imagens.
Se aquilo que dizemos nunca é tudo e nunca suficiente, se aquilo que tentamos contar nunca chega a ser aquilo que se passou ou que sentimos, tudo o que escrevemos está situado no mesmo lugar da história que fica por contar.
Soube momentos depois que poderia voltar a falar-te como soube que a vida e a morte são a mesma coisa, incontáveis. E outras tantas.
O Jean Genet que tenho lido nos últimos tempos escreveu isto, ou pelo menos, certamente alguém traduziu uma coisa que nos chegou escrita por ele. Não encontrei escrito em francês, nem tive oportunidade de escrever para ele. Nem sei se queria.
Um homem acaba de pertencer por completo à sua obra. O que dele resta é bom para o lixo, mas antes disso, mas logo antes disso, ainda irá pintar (ele aqui descreve uma obra que retirei para não leres já)
Morre sem ter passado pela tentação de fazer de palhaço.
Estou nesta fase a desenhar a exposição com o Mauro, e as referências que ecoam são também elas vindouras daquilo que penso, mas este texto teve precisamente isso, um dia, um tempo e um momento especifico.
João Terras