o que está na margem é o que ocupamos no centro
(2020)
Herdámos as margens invade a gravidade da(s) forma(s), penetrando o corpo indizível do espaço da galeria, silenciando os seus limites e declinando a sua fruição num campo de realidades infindo. Enquanto corpo expositivo de olhar coletivo, as várias formas reunidas constituem um ensaio visual sobre as derivações de perceção da realidade.
Tudo menos um espaço árido, um espaço cheio de uma ocupação de variáveis camadas. Não existe por isso sequência primeira nem resposta última, nem um lado nem um outro, nem um frente nem um verso, existem ritmos e cadências entre formas que se invadem. Rasantes, porosas, translúcidas, lumínicas, a tocar o chão e a verter no ar, a natureza das formas torna-se na tensão de existirem em frágeis estados de transição contínua e de se olharem nas outras.
O som polarizante da instalação de Carmo Azeredo e André Covas percorre as variáveis do espaço existindo numa aparente negação de si mesmo. O som enquanto forma de alteridade é aqui um desvio de percepção manipulado, é uma forma que parece engolir-se em gestos contínuos no momento em que sugere aparecer. Uma chama que transita entre o fogo e o fumo, entre o arder e o apagar. A mesma alteridade do som, encontramos na imagem e palavra que une o dispositivo da dupla. Uma imagem espelho e uma reprodução falível, “um começo de uma grande verdade” ou “o sem fim de uma sublime mentira” subversivamente, uma imagem como uma ficção a permitir-se as fragilidades da realidade.
Não pela alteridade da forma, mas pela matéria surgir como forma, e por isso alterna a si própria, encontramos um desvio de percepção similar na forma de Gil Madeira. Não existe agora nada externo à pintura, existe a sua melanina, existe no espaço, existe sem o seu limite, sem o seu fim. A transparência difusa desta forma agita-se num paralelismo precioso entre o meticuloso gesto de delimitação e transição da cor no espaço e a leveza inexata do seu corpo flutuante.
No mesmo volume indelimitado do espaço, surgem formas em estado duplo. Duplo por transitarem entre a abstração e a figuração, duplo pelo seu estado de serem-verso e anverso. Duplo, nas imagens-luz de Dinis Santos e na luz da imagem de João Baeta.
Na dualidade da luz, do dia e noite, da casa e da ruína, deste lugar e de outro distante, as imagens fotográficas de Dinis Santos invadem-se e invadem o espaço, são a luz e pela luz, como imagens em reprodução e projecção contínua.
O limite é a leitura da imagem por si, será a imagem a sua sombra e a sua forma, o espaço todo.
Na película de João Baeta, o limite é a percepção do nosso olhar diante da forma do nosso corpo. Aquele que se debruça sobre si, rever-te a sua posição e expande o lugar dos seus
limites, torna-se, em sentido oposto, de fora para dentro, do mundo para o eu, da margem para o centro.
Frágil, em deleite metafísico, omissa e silenciosa, suspeita-se ainda, que a forma que sobre sigira--ocorpometálicodeTomásAbreu, quegravitanoespaçorasante--clamauma dupla verdade da mentira, a da forma e a da vida.
A mesma ficção, a mesma invisibilidade, o mesmo alerta, o mesmo ar que existe na camada deambulante de todos estes objetos e imagens é aquele que encontramos irredutivelmente no silêncio por entre as nossas vidas. Em reduto, a margem do espaço será sempre a margem das formas, humanas e não-humanas, reais e ficcionais, o que está na margem é por invariável, o que ocupamos no centro.
A instabilidade da forma é o mais delicado estado de uma verdade inatingível.
Talvez por isso, numa morfologia da própria forma, em diferentes tensões e instabilidades a coreografia flutuante sobre a qual gravitamos neste corpo expositivo tem tanto de suspenso como de penetrável. O que penetramos é o outro lado do visível e por isso da forma.
João Terras