Ensaio para Corrida , exposição individual de Luísa Abreu na Galeria Sala 117
(2020)
A Corrida de Luísa Abreu abre-se a essa potência diáfana (corpo translúcido) do tempo, fora e dentro do que aqui se dá a ver, um lugar onde o tabuleiro é a região aberta de um espaço anacrónico e translúcido. Se o nosso olho nos encaminhar para as partículas, as pinturas, objetos, formas e teias, tecidos e marcos, dados e objetivos, o nosso olho apenas avista esses corpos de cuja uma noção de tempo e espaço maior os absorve. O que vemos é se não mais o tempo todo do jogo e da criação. A pintura, o desenho e a escultura das formas assinalam um mapeamento mnemónico do universo visual da obra de Luísa Abreu. De recuos e avanços, Corrida é uma nova prova de vizinhança, energizando essa camada de tensão que se agita no lado a lado das formas e signos do seu imaginário.
A Grelha passa a existir enquanto espaço orbital onde os signos que nela habitam são do termo molecular e embrionário, movimentando-se dentro e fora da sua esquadria, dinâmica tal, confirmada pela própria grelha, que se torna também ela signo, obstruindo todas as camadas do espaço. É esse sentido de habitar que lateja na instalação pictórica que Luísa Abreu organiza em todo o espaço da galeria, habitamos este constructo, este lugar tabuleiro, onde as formas, matérias e agora o corpo de quem nela habita, correm e percorrem. Se olhamos para um tabuleiro de jogo como um lugar matriz, será também esta exposição uma instalação matriz, onde tudo o que possa compor o seu imaginário habita num espaço em potência. Exposição-tabuleiro que se coloca sobre a mesa -- chão paredes, tetos e pilares da galeria, são rebatidos e estendidos numa composição imagética. Talvez seja esse o lugar expositivo como lugar de mesa, onde nos damos ao outro, onde professamos com ele, onde nos propomos a ele. O tabuleiro, ou agora a exposição, como timeline, desdobrando-se como um mapa onde montamos e remontamos as imagens, constituímos e ativamos o arquivo das formas e em seguida, sentamo-nos, conversamos, jogamos, expandimos.
Em dois planos, o prenúncio da sala superior da galeria onde encontramos esse espaço orbital, é projetado pela peça de entrada. Uma instalação em dupla trama: um mapa que se desdobra e uma grelha matricial que se duplica e objectualiza para sugerir um lugar de abrigo. A ilha torna-se assim o único campo com margens e limites que poderemos aqui jogar e encontrar. As bandeiras que porventura encontraremos, não localizam, sugerem esse erro de acreditarmos saber onde encontra-mos.
Corridas entre o palpável e o digital, entre a mão e o ecrã (mesmo com a ausência do digital), narrativas trágicas e cómicas, da ordem do racional e do dionisíaco. A relação mimética da natureza das formas revela o erro da nossa visão em lapso de veracidade, o que vemos é se não esse sentido além binário do jogo. Nem o sim nem o não, o certo ou o errado, a esquerda ou a direita, o dentro ou o fora, representa esse lugar outro, terceiro, que por ventura será sempre o da criação. Não binário, não linear, não retangular, nem sempre profundo, não conclusivamente definível, potencial, transitório, transfigurável. A multiplicidade desse possível terceiro, na arte e no jogo, onde a regra deixa de ser piedosamente o duelo.
Seja pelas formas, pelos movimentos, pelos ritmos visuais e performativos [ativado pelo próprio público] o ensaio expositivo de Luísa Abreu revela por si a dimensão estética da forma do Jogo, revertendo o objetivo na dialética, espelhando o princípio na possibilidade, recolocando a meta no ponto de partida. Tal como as linhas e formas, as cores e elementos: pistas, alvos e campos representados como grafismos de uma natureza indeterminável. Nesse campo de três balizas, nessa corrida de três metas, sorri quem defende e não quem ataca.
O que nos dá a vitória se não o irredutível profético fim do jogo, queremos o fim ou o tempo do jogo? A virtualidade desta obra como um todo é de que não termina com a sua vitória nem com o seu fim, tem o tempo todo que nela jogamos e que dela jogaremos.
O jogo já não será assim de existência singular, define-se como matéria elementar de uma condição do humano, lugar de mergulho, vertigem. Talvez seja essa a estrutura fundamental do jogo na obra de Luísa Abreu, a condição de nos submetermos a um lugar paralelo para olharmos o real.
Em recuo de tempo, lembro o passado episódio dos Monty Pynton, The Philosophers' Football Match (1972), onde o ex-futebolista Beckenbauer era afinal a única surpresa estranha no onze da seleção Alemã. Nesse jogo de um confronto dialético de Apolo e Dionísio, no Ágon (combate/batalha) de Gregos e Alemães, num estádio lotado de cadeiras vazias, Confúcio, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino eram os árbitros, mentores precisos na procura de um sentido para a ordem e o caos. Na matéria ardente do embate, os Monty Pynton apenas falharam ao darem a vitória aos Gregos com o golpe de cabeça de Sócrates que surge após o apoteótico grito de Arquimedes, EUREKA! (Heúreka) que permitiu aos jogadores em campo descobrirem que a bola teria que rolar.
Sem essa punch line, de que raras vezes os Pynton se socorreram, sem essa Eureka, teríamos ficado pela estrutura, pelo jogo a vir, pela definição do espaço, do dentro e do fora, do fim e do inicio, por um tempo indeterminável. Teríamos ficado pelo cartão amarelo que Nietzsche recebera do bolso de Confúcio por ter protestado e debatido a sua opinião. Não fosse o golo e mais amarelos teriam saído do bolso do pensador da China Antiga. Num jogo onde não debatemos e partilhamos as regras, permitimos ao outro a decisão elementar da ordem. Também a ordem precisa do caos, também Apolo de Dioniso e versa. Talvez um dia, fora do campo do jogo, reclamemos com maior pujança o facto de alguém tentar calar um jogador.
A meta da obra de Luísa Abreu seria a mesma desse estado interminável do jogo entre filósofos, a mesma meta que o poeta Andrei Gorchacov se obstinou na cena final de Nostalghia (1983) de Andrei Tarkovsky, ao transportar a vela acesa de ponta a ponta de uma piscina sem água. A meta, o fim, não era o de chegar com a vela acesa, não é o de se superar, vencer ou concretizar, para o cinema, aquela meta era de ainda estarmos naquele tempo todo que o poeta percorre. A meta é a vida e o tempo todo à nossa frente, será esse o espaço e o tempo das imagens de Luísa Abreu, estamos dentro e fora, o tempo todo.
João Terras