Big Gay Heart (please don't break my big gay heart)
(2019)


Em Big Gay Heart (please don't break my big gay heart) o Espaço MIRA retoma o diálogo e a reflexão em torno dos modos de pensar e agir sobre e pelo corpo partindo das dinâmicas performativas em contexto da produção artística contemporânea. No cruzamento de múltiplos corpos e seus estados de deriva, Big Gay Heart convoca a natureza e a alteridade reconstituindo espaços de libertação para o diálogo e perceção do outro, enquanto ser de incomensuráveis mudanças, transições e sequelas. Numa mostra que convoca a performance, a vídeo-performance, a música e a pintura, é sincronizada uma diversidade taxonómica do género e da representatividade caminhando para uma dimensão onde a forma, a pele, a segunda pele e o indumento desvelam um lugar de afirmação e revelação para uma condição de libertação do corpo. Em diferentes ritmos o espaço da galeria será ocupado ao longo da tarde por ações, intervenções e instalações de António Lago, Dori Nigro, José Almeida Pereira, Paulo Emílio, Susana Chiocca, Tales Frey e Vicente Vieira Campos, num fórum performático de elogio ao corpo, pelo corpo, ao humano, pelo amor.





JOSÉ ALMEIDA PEREIRA

After Ticiano (2019)

Cavaleiro desconhecido (2019)

Pintura 



Numa extensão do ato de pintar, como reconhecemos na sua prática, construindo outras espessuras sobre as camadas das obras de múltiplos artistas no passado, José Almeida Pereira revisita agora o artista veneziano Ticiano Vecelli para imprimir uma nova camada sobre a(s) imagem(s) do pintor renascentista. Através desta segunda pele, desloca o carácter identitário do retrato abrindo um espetro sobre a natureza da transformação e da mudança onde a alteridade do rosto se afirma como uma exatidão natural. Na posição do pintor, que olha, remete e replica, o gesto moroso do pincel ganha por isso, nestas imagens, uma dimensão dupla. 

A maquilhagem não tem por que se dissimular nem por que evitar se entrever; pode, ao contrário, exibir-se, se não com afetação, ao menos com uma espécie de candura.1

         1 O Pintor da Vida Moderna, Charles Baudelaire, Poesia e Prosa






LYZ PARAYZO & AUGUSTO BRAZ

Fato-Indumento (2015)

Vídeo-performance



Poderíamos precisar que toda a prática artística, política e por si vital de Lyz Parayzo corre em torno da percepção e apresentação do corpo, convocando incessantemente a sua posição de afirmação, bravura e libertação. Em Fato-Indumento vídeo-performance, a artista (re)apresenta o seu corpo como molde escultórico para a construção de um vestido em processo. O lado amorfo da confecção do indumento remete-nos para a exaltação dos corpos plurais, híbridos, não regularizados, assim como critica a secundarização dos mesmos pela sua natureza reclamando a sua pureza mutável e transgressora. Oferece-nos a beleza de um corpo por vir assim como afirma que o corpo e o que vestimos é um ato de natureza humana antes mesmo de ser um ato político.  









SUSANA CHIOCCA

É Por elas (2019)

Vídeo 



Apropriação de quatro vídeos de duas Drag Queens aos quais podemos ter acesso nos seus canais na internet, a Lorelay Fox e a Rita Von Hunty. Cada qual explica e expressa de maneira singular a importância da diferença, entre a poesia e as referências bibliográficas.







TALES FREY

Tapete Vermelho (2019)

performance duracional

15H00



Remetido para o canto, o corpo, os corpos, que corpo, que corpos. No curso da prática artística que tem percorrido o modo de operar de Tales Frey, não dissociando um modo de estar político e social correlacionado, o artista retoma o gesto de aproximação dos corpos para reclamar um sentido plural e livre dos mesmos. Um corpo coletivo, híbrido, belo, sem que o segmento, o género ou qualquer representatividade dite a sua existência. Tapete Vermelho trata-se de uma escultura-indumento ativada pelo(s) corpo(s), um vestido duplo convocando dois seres num movimento único sobre um caminhar partilhado. Não caminhamos sobre, somos o que caminhamos. 



Performers: Letícia Maia e Vítor Bárbara. 

Assistência: Paulo Aureliano da Mata











ANTÓNIO LAGO

SAIA (2019)

performance-concerto duracional 

15H30



Do volume ao movimento do corpo, toda a sua espessura é um ato político. A impressão que desse ato eloquentemente retiramos é que poderá expressar ou não a nossa difusa relação entre os Humanos. Num movimento de dança em contínuo António Lago ritualiza os ecos discursivos e disruptivos canalizados em torno das várias polémicas que rodeiam a ação da deputada Joacine Katar Moreira e do seu assessor parlamentar Rafael Esteves Martins, apresentando aquilo a que poderíamos chamar de uma dança-discurso. No sentido homónimo da palavra SAIA, Lago dança no presente sobre o presente diante de ecos que perduram sobre discussões que tendem a voltar e parecem resistir, enquanto isso, o performer continua a dançar, em corpo híbrido, em movimentos outros. Essa dança que antes mesmo de ser um ato político é um ato livre. 










VICENTE VIEIRA CAMPOS

It doesn't matter what you wear /Just as long as you are there (2019)

performance duracional

16H30



Em gestos e movimentos contínuos, emergindo por entre o espaço, os corpos e partilhando do som da ação de António Lago, Vicente Vieira Campos dança com o seu tutu nos interstícios do espaço e do pensamento, convocando a ordem o passo e a regra numa desconstrução destes mesmo conceitos numa procura por uma certa fluidez natural do corpo, enquanto representação livre e transitável. Homem, mulher, um corpo afinal que sempre dança. 







DORI NIGRO

Serei/a (2019)

performance

16H00-16H30



Serei/a nasce de uma homenagem a minha falecida avó materna, que era filha de Iemanjá (sereia). Ela incorporava sua Orixá, num terreiro de Candomblé que não mais existe, na cidade de Olinda, em Pernambuco, Brasil, onde cresci. Minha avó foi injustamente presa durante regimento militar no Brasil por ter credo e corpo livre. Lembro-me de quando criança, haver em mim certa curiosidade pelas roupas “femininas”, reprimidas para qualquer menino. Não tinha consciência sobre gênero. Quando se é criança pequena a linha entre liberdade e repressão é muito tênue… Às vezes nem existe. Os corpos livres sabem que é difícil assumir seus credos, sexualidades e cores numa sociedade que ainda persegue e mata corpos negros, femininos, trans… feitos de metades.





Colaboração de A João, Heidy Luz, Mauricio Igor, Matheus Jadejishi, Maurício Santana, Thiago Almeida Concepção/produção: Dori Nigro e Paulo Emílio (Coletivo Tuia de Artifícios) 

Maquiagem: A João

Som: DJ Coby










PAULO EMÍLIO

Santa Barba (2019)

performance-concerto

17H00 - 18H00 



Santa Barba é uma entidade encarnada invocadora da afetiva memória musical brasileira, por vezes esquecida na poeira do tempo e pelos médias.

Em canções que anunciam as mulheres que habitam @ performer, antes silenciada por N interditos do corpo, da voz, do gesto, da veste, do (vir a) ser… Santa Barba conjuga-se possuída, dialogando com gêneros musicais populares variados de forma (des)abusada, desafiando o ser/estar no mundo em identidade/diferença/pertença como forma de resistência/resiliência/provocação.

Mostrando-se de coração inteiro, cosendo os pedaços que sobraram de históricas violações, Santa Barba refaz-se em um auto de fé desavergonhada, desocupada de medos. Louvação do Sul no Norte. 



Performer: Paulo Pinto

Violão: Ammanda Mattos

Som: Dj Lúcio Flávio

Produção: Dori Nigro e Paulo Pinto (Coletivo Tuia de Artifícios)
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