A pata direita do Cavalo de D. Pedro Mathias Gramoso
(2022)



A pata direita do cavalo de D. Pedro é a esquerda. A pata esquerda da equestre de D. Pedro ergue-se diante da praça. Caiu morto em batalha, 1834, tuberculose, essa que em homem de tão sã saúde só lhe pudera tomar tal maleita pelo corpo bala das trincheiras a que se submeteu enquanto rei libertador. Fala-se a lama, “ó rei sou soldado ao teu lado” jaz o corpo e o cavalo de uma pata erguida que não mente, não cala. Morreu rei e herói, não morre.

Rei durante 4 meses, temporário, em Portugal, ao lado do Brasil, na simbiose do império dos tempos.
Entregou o corpo à capital, o coração à cidade do cerco e o filho ao País onde pode ser rei. Ficou o Brasil com o filho entregue ao esquecimento das águas do rio carioca.

Devolveu-se na primeira comemoração o corpo, 150 anos da independência do Brasil, na segunda, por fim, o coração. 200 anos. Um filho nunca se devolve.
Afinal o que é um corpo ou um filho sem um coração.
A pata direita não mente, é a esquerda, e na mão direita, a estátua de cinco toneladas de bronze verde, em frente ao Hotel Intercontinental dos Aliados no Porto, ao lado do Mc Donalds, segura a constituição de 1826, na mão esquerda, as rédeas do cavalo. Parece mentira.

O primeiro passo para contarmos uma história é o de fecharmos os olhos. É no sublime da invisibilidade onde podemos suspeitar de todas as formas. No tempo das nuvens, se assim o podemos chamar ao tempo presente, onde a pálpebra do artificial e do digital se funde na nossa visão, tornando asséptica a nossa capacidade de discernir os tempos e espaços, o fechar os olhos, o olhar sobre uma janela fechada, o ver para lá da parede é o que ainda não vencemos, é o que ainda nos permite ver e imaginar de forma aumentada.

Foi assim que li a história do rei, IV de Portugal, I do Brasil, a quem a história o ordenou corpo símbolo da independência. Foi também assim, aumentada, distorcida, em forma de conto e de fábula, que Mathias Gramoso usurpou a estátua, e a imaginou aqui (ou nesse second life, nessa nuvem) no lote 67 do centro comercial de Cedofeita, a poucos metros da Igreja da irmandade da lapa, onde o mesmo coração, dizem, esteve até então. Já não está, ou está, tal como a estátua do Mathias. O artista tem feito isso ao longo das suas últimas criações, finta o real com o artificial até que entramos no conto de olhos fechados.

O coração e o corpo colocam-se em formol, dobram-se em múmias, um filho jaz, não se materializa. Ainda que jaz, o símbolo do filho nunca terá a forma de uma coisa tal como agora D. Pedro tem estátua, corpo e coração.
Ainda que una, a escultura que vemos é sempre a mesma, devolvem-se as formas e esquecem-se as vontades. E um filho continua sem se devolver.

D. Pedro leu Voltaire e Voltaire não percebia nada de amor, nem de liberdade de expressão, nem de bossa, nem de samba, nem de dança, nem de choro. Nem de tinder.
Voltaire não sabia sequer, que a pata direita do cavalo de D. Pedro era a esquerda.

É o que vemos, a perna. A única forma que nos disseca o real. No seu fundo, o símbolo do Deutsche Bank. Está assinado o sublime prelúdio da exposição.
Cíclica e viciosamente, comendo-se a ela própria, a história, a vida. A história do capital e do colonial no rabo e na boca da cobra que nunca começa ou chega a findar/fintar. Infinita, viciada.

D. Pedro sabia-o, e era filho de rei, rei, e nada mais pode fazer diante dessa cobra que sempre se engole e nasce.

A liberdade não tem oferta, nem souvenir e até aposto que não tem forma de ninguém.
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