Ensaio para o tempo das imagens
(2022)
Será esse o lugar de quem pinta e de quem poetiza, mesmo que por certezas não possamos perguntar a esse outro, porque pinta ou porque escreve. Em último alcance pinta porque quer ver ou escreve porque quer sentir.
A prática de Miguel Ângelo Marques, como a prática de um pintor ou de um poeta, encontra-se no cume dessa paralaxe, age porque tem de agir, alimenta-se porque não cessa, inscreve porque não acha.
No Atelier-Museu António Duarte, Miguel Ângelo Marques inscreve a sua presença nos cursos intermitentes das formas e fôrmas do artista a quem a casa transporta o nome. Será nesse segmento das margens o lugar onde pautadamente encontraremos as suas imagens voyeur, aqui, constatadas como elementos de uma estranheza inconformada, gerando nos elos de uma nova ficção, um novo espetro para o museu, olhando-o na sombra dos seus objetos firmados, recapitulando-o nas certezas e leituras que deste lugar poderíamos achar já consumadas.
Poderíamos socorrer da figuração, passear pela abstração, encontrar na técnica e na prática a sua justificativa e identidade, contudo, o tempo, esse, é de uma velocidade outra. As imagens pictóricas do artista são dessa matriz vital de quem cria por desejo, materializa por espelho.
O que encontramos nas suas obras, mesmo que não de forma linear ou organizada em atos e sequências de natureza diferentes, o que achamos, é a porosidade e efervescência das imagens. Habitada no desenho, a pintura é o último gesto de uma densa corrente que tem início na atração, cambia para o traço e projeta-se (literalmente) no tecido. Assim, a tela é se não também ela película desta sequência rítmica entre imagem e visão.
Não subjugando a preciosidade de encontrarmos, umas tantas vezes, o sentido do arquivo, de quem recupera e volta pintar, sobrepondo tempo e imagens, o que vemos são captações de imagens que não deixam de ser ficções e que certamente o atraem talvez por essa anamorfose do natural. As imagens para onde olha são maioritariamente retiradas do ecrã, desse lugar outro onde encaixamos o real. Nesse universo do digital as imagens são a primeira linha de uma estratégia maior de controlo e deturpação do natural e, como que num algoritmo, aquilo que vemos é repetido por um código que gera uma sequência por semelhança na fração do agora. O que este mundo das redes, da web e do digital se esqueceu é que o algoritmo da semelhança não é uma questão de tempo e relação, toda a pintura desde a sua ebulição histórica é ela mesmo um algoritmo do real insurgindo entre quem cria e o mundo.
Durante o último ano essa recorrência tornou-se prática no modo de criar de Miguel Marques. Alimentado pelo algoritmo das imagens que o anónimo lhe dava a ver nos social media, permitiu que o aleatório doma-se aquilo que já era a sua fome não saciável pelo pintar.
Aquilo que achamos ser a velocidade indomável das imagens em catacumba nos media é contornado pela morosidade da pintura. Os corpos e lugares, as paisagens e arquiteturas, os humanos e os animais, que des-pessoa nas remontagens que processa, são agora do lugar da metafísica, cenários de suposição e relação, ficções e deturpações num binário sentido da imagem da imagem (da imagem).
O seu trabalho torna-se assim numa singular ponte que nos permite aceder ao tempo impreciso da realidade: é alimentado pela ironia da sua natureza, é rebelde pelo sorriso no rosto que ainda nos deixa. Se as obras tem ainda toda a vida pela sua frente, como diria Ponty, aprenderemos que não iremos encontrar a razão do seu porque, aprenderemos na sua ausência. Desejo de pintura é o que cessa a sua vitalidade, é a morosidade do tempo da sua criação que lhe devolve o tempo do real, esse, com o qual continuamos aprender a viver.
O algoritmo da pintura é o desenho que a carrega. Desenho, fantasma incandescente que enfrenta a visão.
Se um dia encontrarmos um modo de acharmos o que vemos, a pintura será, ainda, uma preciosa e irónica salvação para tal.
João Terras