CICLO Bienal' 21 Fotografia do Porto  - O que acontece com o mundo acontece connosco
Entre o caminho e a clareira

de Miguel Teodoro, Felícia Teixeira e João Brojo 
Curadoria José Maia
(2021)



Se existisse um lugar nativo para o mundo seria uma clareira. Desde o princípio dos tempos que já todos o sabiam, primeiro as árvores e as florestas, os seres visíveis e invisíveis, os micro-organismos, os animais, os povos nômades e indígenas, as comunidades. A floresta sabia-o que a clareira fora, desde sempre, o seu paradoxo de existência. Nos prados não existem clareiras, pois já a floresta foi sombreada pela mão do humano, as clareiras são lugares não do humano, do incontrolável, lugares onde a copa das árvores não sombreia, onde a luz do sol entra sem limites. São esses lugares de absoluta vertigem e desproteção, ilhéus nos aglomerados de árvores, terrenos a céu aberto onde a natureza se alimenta, onde o humano se fixa e o animal busca. 

Os dois projetos expositivos, How to Become Native de Miguel Teodoro e HOJE de Felicia Teixeira e João Brojo, apresentados no contexto da C.ICLO no MIRA, pouco ou nada devem às imagens de uma clareira. Em todo o caso são inevitavelmente e em cruzamentos distintos imagens da natureza de uma clareira. E são-o porque agem enquanto processos de criação e pensamento existentes nestes lugares de cisão e suspensão dentro da natureza, a céu aberto e onde é procurada uma cosmovisão amplificada dos modos relacionais do humano e do ambiente. 

Na esfera do digital e do “publicitário” chegam-nos as imagens de Felícia Teixeira e João Brojo, irônica e paradoxalmente satíricas, criadas a partir da Foz do Porto enquanto centro da sua ficção, tomando a forma de como nos conectamos com o natural em escape domesticado. Em sentido contrário à espessura das imagens de HOJE, olhamos o analógico e o temporal das imagens de múltiplas geografias de Miguel Teodoro, que partindo do texto do agroecologista americano Wes Jackson, estica o seu atlas mnemónico de imagens para revelar as sinapses porosas do encontro inevitável do humano com o mundo exterior, saturando pela abstração, as mais puras das circunstâncias que revelam esta relação de existência como prática do vernáculo infortúnio.


Em termos instalativos os dois projetos irão coabitar em diásporas próprias inclusas a um sentido de possibilidades e debates cruzados, expandido o lugar da fotografia ao objeto escultórico, à forma e à fôrma, ao suporte e à luz, às possibilidades porosas de que a fotografia enquanto matéria nunca existiu separada. Entre o caminho e a clareira agirá deste modo numa orientação coloquial, religando os ecossistemas de vida e arte nos espaços iniciáticos da sua aprendizagem coletiva.


João Terras
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