(2019)
Cinco anos seriam poucos para acreditar que a cidade tem uma pele fina de mais. Cinco anos seriam poucos para acreditarmos que ali surge mais um corpo, que aqui se transforma mais uma estrada, que ali deixou de morar, que aqui passou a morar, que ali continuam a chegar. Cinco anos é o tempo que dista da primeira apresentação de Paulo Mendes no Espaço MIRA, apresentação integrada na coletiva que delineava também o novo projeto artístico para o espaço. E o tempo será esse, o lugar de um infortúnio buraco que não cessa de se dilatar. O olho e o olhar que Paulo Mendes nos propõe agora, será porventura o de um veículo idiossincrático do espaço/tempo, terminologia aqui proposta em termo de corpo agregador, espaço e tempo, espaço/tempo.
Olhar fixamente um mesmo plano, olhar conicamente para uma mesma imagem, mais do que três minutos, talvez mais ainda, olhar até perder atenção, até ganhar atenção, olhar para a mesma paisagem, forma, corpo e matéria, olhar até ao lugar do sono, é olhar até quase nos ser permitido a visão. É despir a imagem, é traze-la à luz da sua imensa escuridão, é retirar-lhe a pele, é olhar-lhe nua. Vemos o verde das plantas mais verde, vemos nas paredes, no chão e no céu cada estrato, cada fissura, cada forma, vemos e transformarmos aquilo que vemos, figuramos desenhos em todas as esquinas, por momentos predispomo-nos habitar cada espaço. E quanto mais vemos, a cada segundo, menos deixamos de ver, mais passamos a ver.
E vejam, cá dentro nunca teremos Campanhã, nem o Porto, nem o campo, nem o rio , a estrada, a rua e o beco, nunca teremos os de cá nem os de lá, por mais janelas que se abram, por menos paredes que nos ceguem, por menos portas e saídas que nos possibilitem. Por mais buracos que façamos, hoje, nem o próprio lugar terá em si o seu lugar. Por sinal, será esse o lugar matricial em que a arte opera, o lugar sem referência onde nos é permitido atingir o real dentro do seu inesgotável estado de ficção. Nunca a Galeria, o Museu, a Casa, nunca outro espaço será assim capaz de guardar o tempo. E o infortúnio dessa luta que nos é genética, ecoa na antagonia de todos os lugares, pessoas e personagens aqui representados. Sítios que se suportam na fragilidade, no estado de iminente existência, de deslocação, de falência, lugares que projectam os nossos receios e por sinal seduzem-nos pela sua fecunda cadência.
Os vários filmes, a par do seu corpo/imagem, definem assim uma estratigrafia do tempo e espaço do território em consideração, e essa será a precisão do posicionamento do olhar, um desvendar arqueológico, um escalonar de evoluções e sobreposições, de resistências e de superações, de descontrolo e desviâncias. Por recurso uma cartografia inusitada na posição de delator e diletante sobre um território tão sensível e poroso como este. Será essa a lógica da própria montagem, instalação que abre e fecha com duas projecções de cerca de 40’ cada, onde o tempo é convocado sobre a intenção de fixarmos o nosso olhar numa mesmo plano onde a falência do dia tende para a noite. O filme que nos recebe dá nome à própria exposição e o filme que nos fecha ressaca o trabalho apresentado na exposição passada. Pelo meio, as pessoas e os espaços - a pele e a voz a matéria e o silêncio. Entre a passagem do tempo todos parecem sussurrar algo maior, algo que nos diz respeito a todos.
A beleza inquietante deste corpo exposição-instalação, obra como um todo, fractura circunstancial do real, preexiste na certeza de que ela sabe o que é, imana o que é. A possibilidade de ser uma ponte para algum lugar é substituída para se tornar numa ilha de um lugar algures. Desta maneira, aquilo que o artista apresenta não nos localiza, desloca.
Por circunstância das partes, nesta instalação o único lugar que é em si o lugar a que se propõe, será o lugar da maquete. Espaço dentro do espaço, projecção da galeria, erro ou possibilidade, concretização ou gaveta. É um duplo e a sua presença ativa ainda mais a nossa deslocação.
A ideia de corpo instalação, obra seminal que se enxuga no lugar, que se aprecia da forma à luz, da peça ao chão da parede à porta, que se estende a toda a sua exterioridade têm definido aquilo que poderemos entender como a prática artística de Paulo Mendes, seja na sua figura de artista, no corpo de performer, enquanto curador, crítico ou pensador. Os trabalhos em vídeo de Paulo Mendes chegam por isso a operar dentro da lógica porosa da imagem, como um corpus expandido à sua performatividade e alimentado na lógica do seu movimento, acabando por gerar dispositivos automatizados entendidos como zonas de projecção para o real.
Escavar um buraco - projeto para uma exposição-instalação reactiva, como já referido, a presença do artista nesta zona da cidade. Em 2013, na colectiva O Vasto espaço da realidade, Paulo Mendes apresentava uma instalação vídeos, um plano fixo de cerca de quarenta minutos enquanto o dia desce sobre a noite na zona da estação de Campanhã que convergiam numa lógica similar à de agora, também aqui apresentava ainda a conferência-performance A performance como cartografia de um território crítico, onde, partindo da sua própria obra, construía um discurso gráfico reflectindo sobre as dinâmicas políticas e culturais que o permearam. De forma directa e indirecta existe um devir nesta sua nova apresentação, um retomar da posição da câmara, um reiterar de atitudes, quanto em conta um reformular de posições. Não tanto um olhar de novo, mas antes mais, um olhar vezes sem conta. Voltamos a estar no lugar dos ecrãs e das telas, do vídeo e do cinema, e mais uma vez no vasto espaço da realidade. A escala do devir mede-se também pelo facto de estarmos no lugar e no tempo do projeto, termo de pausa, espécie de frame a uma escala sem dimensão. Aquilo que Paulo Mendes nos revela hoje é parte de um extenso projeto de trabalho de várias filmagens que o artista tem constituindo ao longo do tempo, com realidades, lugares, circunstâncias e cronologias muitos diversas mas que tal como o próprio projeto se tratam de acumular sobre a epiderme da memória de uma cidade que por infindas razões se vem demonstrando atópica.
Enquanto estrutura de rememoração, Escavar um Buraco - projeto para uma exposição- instalação, propõem por designas proposições análogas, recuperar a própria identidade do projeto Espaço MIRA. Cinco anos volvidos e o MIRA continua a revelar a pele fina do espaço e do tempo, não somente a melanina da sua zona contígua mas o espectro que será pensarmos o refluxo dos seus lugares: da cidade à zona de Campanhã, o seu inverso, de Campanhã ao colo de toda a cidade e por consequente de Campanhã ao Mundo.
A proposta que um lugar como o MIRA esboça sobre a zona leste da cidade do Porto, não será somente a de olhar Campanhã e as suas geminações de forma concisa, o corte e o vinco que um projeto como o MIRA abre e propõe será o de escavar um buraco daqui até ao outro lado do mundo. Primeiro o de escavar um buraco aqui e não em outro sitio qualquer, depois de escavar daqui para lá. Mesmo sabendo que o buraco não chegará ao outro lado do mundo, a consequência de um projeto cultural e artístico como este será o do seu lugar de agitação, angustia, pulsar e brilho, o mesmo que pudemos encontrar no lugar do escavar.
Enquanto escavamos agitamos a vida, o tempo e o espaço. Esperemos que o buraco não se asfixie de areia.
João Terras