(2020)
Talvez seja esse o lugar sem fim da matéria que Bachelard vê na impalpável matéria onírica da água. A mesma trepidez ressalta no corpo mole que avistamos em falência, em queda, tendendo para o desaparecimento da sua forma sem recuos possíveis ao início da sua matéria. Diante do nosso olho o corpo escultórico ou a forma da matéria que vemos em curta permanência na montra da Ocupa permite-nos aceder a esse lugar de transição entre a forma e o sentido da própria forma.
Na escultura Brun Van Dyck (2020), Mathias Gramoso e Raphael Bachir Osman, recuperam a dinâmica de partilha do espaço expositivo enquanto lugar alquímico de criação, que geram na exposição duo “We had everything done before lunch, this morning” em Novembro de 2019 na Erratum Galerie em Berlim. Na exposição, o espaço da galeria foi constituído enquanto lugar de atelier, subjugando as práticas às receitas, os ensaios às experiências, as criações aos alimentos. A instalação partilhada matizava não um ensaio sobre a figuração do real pelo alimento mas antes mais a procura da organicidade e vitalidade da matéria para dela olharmos o real. Neste desvio de relações projetasse agora um novo momento num processo de criação à distância, seguindo a regra e a receita para a criação de uma matéria sem referente com memória do que se passou lá atrás.
O bloco de açúcar caramelizado que observamos existe nesse vão sentido da imagem de si, passado e futuro das suas características, vive dessa tensão de existência de que se socorre o alimento e a própria arte. Existência orgânica, mesmo as criações cuja sua performatividade se avista distante, veremos a olho nu, que, seja qual for a criação, na tendência para o estado de permanência das criações ecoará o ineficaz sentido perpétuo da alma da sua matéria física. Se é no olho o espírito do mundo, e se é no espírito a matéria do mundo, tal como nos falava à varanda de caneta na mão, Merleau-Ponty, tudo o que nos rodeia se torna alimento e tudo o que se expande se torna consumo do nosso olho. A obra é além mais, tudo aquilo que em si parece encerrar, o mesmo que olhar de frente para a água e sabermos, que mais real que o mar que vemos será o mar que pintamos.
Também por isso o título desta nova peça reclama o sentido vertiginoso do mundo e das formas, e reclama-o poética e ironicamente, princípios caros à prática destes dois artistas. O vão sentido do nome do pigmento terra “brun van dyck” projetado aqui pela tónica na cor do açúcar em caramelo, revela a ironia e fatalidade da criação, frágil e suscetível, tal como é o açúcar e tal como é o pigmento histórico, frágeis e susceptíveis à luz, falíveis, admiráveis.
sem que a matéria ou a forma sejam o fim da coisa em si (...) na pintura como na cozinha é necessário cair alguma coisa em algum lugar ( Roland Barthes em O Óbvio e o Obtuso, 1982)
João Terras