(2019)
le mot n’est pas encore inventé
Marguerite Duras em Les Mains Négatives (1979)
(O desejo,
a palavra ainda não foi inventada.)
Marguerite Duras em As Mãos Negativas (1979)
Existe uma admirável e distante relação entre as mãos — negativas para Marguerite Duras — marcadas nas grutas do período magdaleniano algures numa costa da Europa Sul-Atlântica e a palavra que Rubens Mano (São Paulo, 1960) aqui nos aproxima. Enérgica, fervente, empática, desvelada.
Proximidade ainda maior, diante das palavras que Marguerite sobre elas demarcou. De frente para o oceano, o homem só, olhou em grito aquilo que desenfreadamente apenas nos deixou. Mãos, formas, lances, cores. As enigmáticas rasuras da pré-história são de uma apetecível apelidação ao que poderíamos exclamar por lapso de escuridão histórico.
São a verdade de uma inegável escuridão e por sinal a potência de uma interminável significação. Qual dos Homens capaz, além da poética de que carnalmente nos socorremos, se determina a significar todas aquelas mãos, aqueles traços, cores e movimentos. De dimensão outra, aquelas mãos declamam a maturação da espécie e permitem-nos chegar à determinação de que tudo, afinal, mesmo aquilo que julgamos ter memória e prova disso, se definha para um silêncio milagrosamente salvo apenas pela poética do outro. Esse Outro que — até que ainda seja possível pisar o chão e olhar de frente o oceano — se encarregará de iluminar tudo aquilo onde a certeza da palavra é revertida por um golpe de mistério. Também aqui nesta sala, importa o outro.
Longe de qualquer exotismo, será este inegável desejo do saber, este melindrar do observador que lê e vê no texto de Duras em Les Mains Négatives (assim como no relato de Rubens Mano) o desejo de aceder ao inacessível, de olhar o invisível, de ser fecundo ao tempo, de ser alcançável, um desejo arrebatado pelo secreto, mesmo que na verdade esse mistério não se encontre no porquê daquelas mãos, mas antes mais na vontade de desvelar o ser que as criou. Mãos anteriores à palavra, anteriores ao seu movimento, com a escrita, — le mot n’est pas encore inventé — a palavra ainda não foi inventa. E discorre um desejo pelo ser.
CORPO
As mãos e o ser, as mãos e a gruta, o oceano, a negritude, o ruído, o silêncio, o lugar, existem na sala onde agora nos encontramos. Existe e não existe, existem estas e outras imagens daqueles que agora passam em passo. As mãos, mesmo sem nunca as termos olhado, sentido — elas existem no poema de Duras, nas imagens de Paris em alvoroço que capta em filme, existem desde aquele solitário ser na caverna até ao outro, infinito outro. Será essa a vitalidade daquilo que criamos, de todas as imagens, dos lugares, será essa a vida das formas, esse grito virgem e selvático que existe entre a vida e a morte, na tensão que existe no contínuo renascer de cada lugar em cada olhar. Mais ainda do que o significado possível das formas, será a imaginação do ser e do seu viver, é essa energia que interrompe as palavras da poeta, é essa energia que procura, sussurra em travos de linguagem, procura as mãos e o ser, um lugar de tempo e existência, olhá-las será, em todas as escalas, vê-las num grito.
Falemos assim, de tal modo, nesta sala, de frente para o relato de Rubens, de uma certa vitalidade das coisas.
que pulsar este ? onde se dá o início? onde encontramos a vida e onde declina o seu terminar?
qual a substância ativa de que se faz afinal o criar? que corpo mole é aquele que criamos? Onde existe. qual o instante em que ele nos escapa por entre um golpe de sorte, onde inevitavelmente aquilo que julgamos ser, é, incontrolável.
A quem pertence ? percebemos que a matéria ativa, a vida, o pulsar, a existência das formas que exaltamos ao mundo — em tempo e espaço — usurpam-se num gesto fantasmático e existem enquanto polo generativo no momento do encontro.
Tal como Marguerite procura o sentir do homem só, também Rubens Mano procura aqui constituir um lugar outro, um retomar e um novo. Não o do passado — certamente irrecuperável —, talvez não mesmo o do presente — em potência de si mesmo — e certamente sem saber o de seu futuro. O lugar de Versão Palavra — exposição apresentada agora no Espaço MIRA — será o de um corpo expositivo em paralelo chamemo-lhe assim, um corpo que procura outros corpos, uma imagem que existe a partir de uma outra e que parte para as potências de si mesmo, um lugar que sinergicamente existe numa ponte atemporal.
Comum à sua prática, a criação de lugares de trânsito e transição, lugares-imagem, espaços de sensação e complacência, espaços que transitam entre o eu e o próximo definem em Mano não somente um modo de operar na procura de ambientes sinergéticos repercutidos entre graus de apreensão e memória mas também, com grande ênfase, no reposicionamento e questionamento do entendimento da presença da obra de arte.
É sobretudo essa a premissa, não perversa mas suscetível, aquela a que o artista se propõe deliberadamente neste lugar, a de suspeitar do fim e da autodeterminação da obra, ou melhor, do criar. Num reconforto proclamado onde aquilo que criamos se aproxima de um macroestado de memória de projecções paralelas e tensões com direcções bifurcadas. A obra como teia múltipla, projecção entre o espaço e tempo a que se sujeita e contaminada pelos gritos de um silêncio críptico, a obra entre aquele que vê e dá a ver, entre o visto e o vidente, entre o olho e quem olha.
Em versão palavra Rubens Mano recoloca a obra de arte sobre um melindrado corpo insubordinado de seu fim. Num agir trifásico, o que foi, o agora e o que se incita no por vir assimilam e unem a criação à vida, como matéria de uma complexidade que se escapa aos domínios e ordens.
A significação da origem também aqui remetida ao expoente do silêncio recolocam o observador no cume do vazio creditando-lhe a existência da sua posição dentro de um cosmos plural e contínuo a que passa a pertencer.
Expansível á rememoração do tempo, à dilatação atemporal, o desvio circunstancial que Rubens Mano provoca revela o corpo libertário e indomável que é, aquele que nos sujeitamos ao criar.
Sobre a perfeita noção de que o contar postula a fragilidade do ser e do real, na Palavra — esse travo que nos promete aceder aos lugares do silêncio — o artista sabe da condição insidiosa a que se encontra votado. Sabe do seu carácter desdobrável, da sua rigidez líquida, da sua falibilidade e do seu tempo flamejante. Mesmo sabendo desta disrupção da palavra, Mano não abdica de relatar um acontecimento como prótese a fim de percepcionar a elasticidade de que afinal a criação é capaz e exponenciar, por sinal, a matéria ativa de que — mesmo que em possibilidade — será feita a arte.
Na parede maior, o relato, a palavra, os signos, as manchas, os positivos e negativos. O desenho, o risco e a marca. A saber, palavras de uma experiência artística realizada em 2005, numa zona fronteiriça entre o México e os Estados Unidos da América. Anacronismos que desta maneira não se incitam no erro, mas promovem a deslocação contra tempo numa dinâmica de ativação.
As palavras em — "s/ título" [versão narrada de visible ] — deixam de ser só palavras, dão corpo e tornam-se corpo, no movimento da escrita, transformam-se, desvirtuam a leitura. Palavras-lugar, corpo mancha, preposição impeditiva a de uma palavra se tornar lugar. Contam um lugar, constroem um novo espaço, relatam com fisicalidade. Da palavra à mão, da boca ao sentido.
O corpo de texto expandido entra num estado anamórfico em ativação com o corpo do observador, este que assincronamente procura a coerência, a linearidade e a leitura, num incansável golpe apenas permitido com o movimento.
A imagem que a narrativa deste texto transcrito a grafite para a parede pode convocar passa a existir em paralelo com a multiplicidade de imagens que se geram com a presença do observador.
Em concomitância com a intervenção de maior escala o artista instala dois outros corpos generativos em dinâmica sinérgica. O Vídeo — “s/ título" [versão expressa] (2019) — que nos recebe, intercala e pausa a chega à zona árida. Associa-se à palavra instalada na parede seguinte, dando continuidade à narrativa, oferecendo mais imagens, perscrutando a velocidade da apreensão.
Palavras, marcas, branco, preto.
O último elemento, sintetiza o corpo transeunte da palavra que disruptivamente avassala todo o lugar, uma peça em silicone — "s/ título" [vale lo inscrito] (2012) — parece ecoar a fisicalidade do transcrito anterior. Será o sulco e a gravação, impele o gesto matricial da mão que marca a palavra à mescla da sua fragilidade. Em concordância com a prática que Rubens Mano desenvolvia à altura da realização deste trabalho, este corpo escultórico, palavra-forma, positivo e negativo mais uma vez, altiva a potência do inscrito, aquilo que demarca a presença.
Será essa a energia destes dispositivos, uma energia que procura os estados ambivalentes da resistência da obra, o estado de permanência que se pode afluir no corpo constituído, qual a sua extensão, permeabilidade, ativação e reativação, renovação e escuta. Estes dispositivos, ou melhor este lugar como um todo, torna-se numa espécie de mise(s) abyme — narrativa que contêm ou pode chegar a conter outras. O texto que lemos na parede, transforma-se em imagens, transmuta-se numa presença ficcional. Tal como Robert Walser escreve na personagem de Jakob Von Gunten; Pouco depois os beijos pareciam-me estrelas e, logo a seguir, novamente flores. Era a natureza e não era ela, as coisas eram imagens e corpos ao mesmo tempo.
As coisas eram imagens e corpos ao mesmo tempo.
De Robert Walser, a propósito, o síndrome bartlebiano que o permeava ecoa também aqui neste espaço, mesmo que saibamos que o enfado da personagem criada por Herman Melville em 1853 — o escrivão Bartleby que abdica de fazer — tenha em Walser uma outra direcção. O escritor suíço viria também abdicar do gesto de escrever, contar e relatar por tempo indeterminado, numa outra direcção. A negação de Walser encontrava-se sobretudo porque a palavra para o escritor ultrapassa-se na sua fisicalidade. Em último caso abdicaria da escrita porque não determina nela a posse dos seus escritos, eles passam a ser não da sua propriedade mas de todos aqueles que o ativam e abrem.
Nem por menos poderíamos deixar de dizer que Robert Walser segue também a máxima de Bartleby - I Would Prefer Not To - Eu preferiria não fazer. No caso de Walser, uma negação sobretudo consciente do estado errático a que nos poderemos propor com a predisposição do fazer, do criar, do contar, e do escrever.
Eu, o tão eu como o homem da caverna só, preferiria de não contar, de não escrever a propósito deste lugar que agora olhamos e sentimos. Rubens Mano sabe do estado em que o relato lhe coloca. O risco e a sorte do contar. Recuperar, reativar o passado.
Talvez seja essa a vitalidade que versão palavra de Rubens Mano exalta, uma extensão do tempo e da forma numa procura desenfreada em perceber as suas potencialidades. Uma versão da obra de arte sendo essa múltipla de versões.
Por fim, falamos aqui de um texto — sobretudo este que corre em nossas mãos — que se nega. O texto e as palavras que até aqui lemos, serão o antes, o agora e o seu retomar, serão o indomável eu e o indomável outro, não nos pertencem, nem no infindo momento em que nos encontramos a sós com elas. Por outro lado, este texto, não existem enquanto convite, não se abdica enquanto mediador e não se consuma enquanto documento. Estas palavras, serão nesse sentido, também elas, da matéria vital e ativa. Conto, corpo mole, transitório, extensível e reversível.
Tal qual no grito de Duras, como neste lugar de Rubens Mano, sem que saibamos a totalidade das coisas, elas são um nosso grito.
J’aime quiconque entendra que je crie
Eu vou amar quem quer que ouça que eu grite
João Terras