Forma e Fôrma
Palavras para ​Panejamento​​ de R​ui Mota
(2020)



As ​panneggio bagnato, os panejamentos ou drapeados, ​num decalque linguístico associado ao fantasma das mãos do grego Fídias, são o termo para o sublime pano molhado daquelas pedras que repousam aos olhos das nossas imagens. Durante toda a vida a escultura encarou de frente esse dilúvio entre forma e fôrma, mole e teso, verteu dessa transição entre líquido e sólido, mesmo que tão pouco o líquido fosse a mão e o duro a matéria.

Além forma estará a fôrma, objeto mágico onde trespassa o ar, múltiplo, duplo, falso, corpo fantasma que dá forma. Todas as esculturas e estátuas para que olhamos, são senão esse corpo negativo e fantasmagórico que se revela por entre um contacto preciso de mão e pedra. Milénios volvidos e ainda procuramos a fala da escultura, dessa prática diferida mais do que qualquer outra. Desde a estatuária que o princípio da escultura sempre se socorreu do dilema de que, durante toda a vida, nunca teremos uma visão plena do nosso corpo.

Num passo de larga amplitude e queda, o artista, que até então, colocava o ponto, a linha e o plano, numa articulação entre padrões e ritmos compostos, aos quais se legitimava em estruturas planificadas, como vimos na Galeria do Sol, no MIRA ou além, atinge agora o desvio das mesmas, as quais, pareciam já ecoar.

Coreografando a genética da sua natureza impura, diluída e fraturante da escultura, mantendo o inconcluso e o indeterminável da matéria, explanando ainda o contacto e a expressão de que a obra só se consuma depois de se dar ao tato do outro, Rui Mota expõe o talho da ​Ocupa​ à ruína do espectador-intruso que invalidamente tenta aceder ao interior da sua memória.

Rui Mota pertence a esse universo diferido da escultura, lugar de encarceração, projetando-se imageticamente, cinematograficamente, ampliando-se ininterruptamente, tal como as ​panneggio bagnato​ de Fídias, os cimentos aqui, caiam sobre o corpo duplo entre ritmo e caos, solenidade e catarse, num sublime presságio de que cimento e pedra guardam a memória da escuridão do seu negativo. Daqui em diante ainda teremos tempo para diluir este fim das formas e o princípio do corpo.


João Terras
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