com Marlon Azambuja, Angela Jimenez, Rita Laranja, Vitor Israel, Mathias Gramoso e Yosi Negrin.
(2022)
Ja, wer auch nur eine Seele; Sein nennt auf dem Erdenrund!; Und wer's nie gekonnt, der stehle; Weinend sich aus diesem Bund!
[Quem um só ente conquistou; seja citado no mundo; mas se na Alegria falhou; ficai só moribundo!].
O poema de Schiller e Beethoven, precisamente por projetar essa ideia de uma humanidade comum, igualitária, por insuflar esse outro global, foi adotado em 1972 como o Hino do Conselho Europeu e em 1985 como Hino oficial da União Europeia.
É à Ode à Alegria que Andrei Tarkovsky recorre para fechar dois ciclos, de duas das suas obras, instantes antes do fim de cena. É a ode à alegria, o então já hino da Europa, que a personagem Domenico no filme Nostalgia (1985) pede que se toque no final do seu extenso discurso em cima da réplica da estátua equestre do imperador Marco Aurélio em Roma, diante de uma Piazza del Campidoglio ladeada de um bando de humanos entregues à loucura e ao delírio. É a música que falha no momento de soar para todos, e quando começa, já Domenico arde no chão. Ainda mais precioso é quando a Ode à Alegria surge tão ao fundo como o som que não conseguimos decifrar e que estremece toda a cena final de Stalker (1979) no momento em que a filha do próprio fixa dois copos em cima da mesa de jantar movendo-os até que estes tombem no chão, nesse momento onde as usinas nucleares surgem na paisagem nas suas costas.
A música, os filmes, as duas cenas, nada tem que ver com esta exposição, ou melhor, na sua natureza mimética nada desses lugares é aqui replicado, foram apenas as conversas e os sonhos trocados enquanto moeda de criação para a construção coletiva de um lugar comum enquanto momento expositivo. A música nada tem que ver com a plataforma cromática de Marlon de Azambuja ao centro da sala onde se suspende uma lâmpada de betão, o corpo em chamas de Domenico nada tem que ver com o pavio infinito de Angela Jimenez, o cão a ladrar no instante antes da catástrofe na Piazza não se encontra nas pré-imagens de Matias Gramoso, as usinas nucleares não são os picos dos vulcões gravados por Rita Laranja, nem as raízes de Yosi Negri são os restos de um cenário qualquer, talvez só a mesa no canto da sala, essa mesa antropomórfica de Vitor Israel seja a mesa metamorfoseada de onde os três personagens de Stalker partem em viagem, ainda assim, essa mesa, como qualquer outra mesa, é a de todos os bares, a de todos os jantar, a de onde sempre todos partimos.
Desenhada entre dois vértices da Cidade, um instante antes da explosão, une as duas cenas nessa luta com o tempo que existe entre estarmos num local, caminharmos entre um e o outro e de permanecermos na sua chegada. Perceberemos que o mantra que se repete, essa música que ouvimos, torna-se no avatar que liga os pólos avessos dos dois vértices bem como os pólos distintos de todas as obras. Ela marca esse início e fim hipotético de estarmos diante de uma falsa cena.
Na Galeria Ocupa o que vemos, é o início desse desejo, o desejo de estarmos dentro de um espaço desativado, apenas diante da música, desse corpo de imagens intangíveis, todas possíveis, infinitas e ao mesmo tempo. De estarmos diante da presença de algo cuja visão não alcança. A música e as cinzas, uma Europa por vir, o filme de Tarkovsky filmado na Itália ou na Estónia, o antigo talho ou a quarta-feira de cinzas.
Isso que não alcançamos com a música é o mesmo que convoca o gesto de Marlon de Azambuja na sua instalação. No centro da galeria da Saco Azul/Maus Hábitos a lâmpada de betão recebe energia para uma luz que nunca veremos, as “cinzas” cromáticas são uma hipotética sombra. Desde sempre que soubemos, a presença de corpos na escuridão é a primeira lição do medo para o Humano, o instante antes do perigo.
Se o tempo do ato de expor é também aqui ele colocado as duas obras que se enraízam no espaço tornam-se num dos expoentes maiores desta tese.
O tempo que distingue as exposições das outras formas de criação deve à necessidade de um espaço o seu maior infortúnio.
É esse espaço que tanto Yosi Negrin como Angela Jimenez rompem. Por um lado, as raízes incineradas de Negrin, surgindo como vegetação selvagem entre os vãos e paredes, aproximam o lugar da galeria do seu exterior tanto mais da sua ruína ou do domínio da natureza sobre o humano. Por outro lado, é o pavio infinito que coloca em tensão o momento do colapso do próprio espaço de exposição que Angela intensifica, algo como se o cenário onde tudo acontece também ele pudesse colapsar.
Neste jogo de nexos juntam-se três outras imagens, duas bidimensionais e uma terceira à procura da sua forma. A impressão do vulcão de Rita Laranja torna-se no mais sublime dos gestos, colocado à escala da visão da criança, é nesse mundo onírico que a imagem de um vulcão é petrificada. A imagem de um vulcão é o episteme da imagem do tempo.
A segunda imagem condensa, numa sequência de três a uma escala preciosa, uma série de acontecimentos numa só imagem. Mathias Gramoso derreteu essa tensão como cápsula de uma impossibilidade de antever todos os momentos presentes num instante antes.
A terceira e última imagem da cena, são os cenários em falência de Vitor Israel. Tanto a mesa de que falamos no início como a varanda para a paisagem encenada, constroem ficções para olharmos através da janela a hipotética realidade.
Com todos estes nexos, a exposição não tenta transformar aquilo que é a natureza ensimesmada de uma exposição, ela é mais uma, como todas as outras exposições, a tentar existir durante o seu tempo.
Nenhum artista, nenhum comissário, nenhum outro agente ou público tem culpa das exposições e de as obras que a compõem serem de um outro tempo. Nessa terrível tarefa de modelar uma exposição como um filme, um instante antes da exposição, falha e não tinha outra hipótese.
Como volta e meia ainda nos acontece, teremos tempo para chorar, para chorarmos diante de uma exposição, teremos tempo para chorar diante desta “cosa outra de outra temporalidade”
P.S.
Pouco tempo depois de ter pensado no título desta exposição e de lhe ter contado, o Francisco enviou-me um excerto de um texto do Gonçalo M. Tavares onde havia lido:
Imaginar um colecionador dessas fotografias que captam o mundo um segundo antes do momento decisivo. Muitas dessas imagens terão sido ignoradas ou estarão no lixo.
Os instantes antes de um grande momento são desvalorizados de modo pouco sensato, como se fossem a província menosprezada da História, a província no tempo.
Mas um segundo antes da grande explosão a grande explosão pode ser evitada. Pensar numa Segunda História paralela à História, onde a direcção do instante - imediatamente antes do instante decisivo - é bruscamente mudada. E aquilo que ia explodir não explodiu.
Escrito perto da Igreja da Areosa, Porto.
João Terras