O outro habita no nosso olho
(2020)



O espaço que levamos a olhar o outro e que o outro leva a olhar de volta. O outro habita no olho, no modo como a nossa retina assimila e liberta, desdita, e se torna espelho. Olho espelho, vidente, medindo o espaço que dista entre os corpos, o lugar que ocupa essa distância é o lugar do encontro. Que lugar esse a que os corpos estão permitidos e que corpos estão ao (no?) espaço libertados. O modo como olhamos o outro, olhamo-nos no outro, olhamo-nos através do outro, a representação dos corpos é também ela medida pelo olho e pelo olhar, pela posição e modo como cada corpo se move ou se é permitido a mover. 

Voltar a olhar-te (onde o criar habita), retoma a partilha dos corpos, a partilha do espaço físico, continuando além tempo e espaço no lugar onde o criar sempre habita pulsante. Retomar com uma coletiva revisitando universos criativos que acompanharam a programação do espaço MIRA durante este período de desviante do ritmo social, sinaliza uma das emergências que socorrem a dinâmica presente e continuamente ativa na genética sintomática do MIRA, pensando no modo como procura dar a ver: a forma como habita e vemos a representação dos corpos e dos lugares-mundo que partilhamos comunitariamente. 

A sequência de universos criativos reunida nesta coletiva, permeabilizam essa emergência do corpo, ética e estética, forma e posição, género e direção, politico e social, humano e animal. Que limites, vincos, desvios, a que barreiras vertiginosas estão subjugadas os corpos coletivos. Os pensamentos atmosféricos destas criações são lincados pelo modo como analisam as anamorfoses do corpo, as problemáticas estruturais, reclamando uma representação equitativa em procura de uma distância não distante. Que corpos se representam no mundo, quem representa, quem dá a ver, como iluminamos o corpo, qual a paisagem do corpo, são linhas fortes da matéria ardente destas formas, volumes, ações e imagens aqui reunidas.  

O híbrido de Alexandre Delmar, estatiza o corpo em queda numa condição volátil e frágil em que as formas e matérias do mundo se sustentam. O corpo verde que ainda bóia no resto do mar, é se não esse ser transitório, muro-queda, falência e falível, libertação e incontornável. Volume visceral, transgressor, interino e exterior, animando e inanimado. É este estado não binário da condição do mundo que as imagens fotográficas e a prática corrente de Alexandre reclamam. Por vir, a ser, por findar, por concluir, a latejar, atemporal.

Transgressor, transitável, primário, é também a natureza de BITCHO, criação de Susana Chiocca que matiza essa natureza existencial de um ser-origem, por dominar, selvático por genética livre. Revelador de uma nova cadência, poético, ritualístico, sedutor, animal e humano de uma representação sem pendor. 

De uma outra queda, de uma outra reclamação em libertação e pluralização do corpo, na génese da sua falível condição de superioridade, encontramos nos movimentos performáticos de António Lago -- que desdita a relação e sistematização do poder e do controlo sobre o corpo em sociedade. 

O movimento, cadência e marcação da instalação escultórica de Miguel Teodoro, supõe uma recontextualização do objeto no lugar da galeria. Esta nova condição de quem habita o que, projeta-se numa relação entre corpo e espaço na sua mediação de visível e invisível. Algo além de uma estrutura que por ventura procurará a perceção entre os tempos: da memória para a especulação das dinâmicas do futuro, do corpo que se movimenta, constrói e destrói, o mesmo corpo que mede e se mede, percorre e encontra, ocupa e liberta. Em sentido estético e formal oposto, também as imagens de cunha Pimentel, percorrem uma ténue linha transitória entre memória e esquecimento, entre o corpo que se aproxima e desaparece, , entre a clareza do olhar e o desfoque sobre aquele para quem olhamos, relação de erro e perceção, corpo anónimo e distante.  

O corpo-paisagem de Álvaro Oliveira, é o corpo que corre, encolhe, se agita, engole o ar e a terra, esconde e se mostra, grita. Quem mede a representação dos corpos enquanto corro -- quem estrutura o discurso no meu olho. Os movimentos de Álvaro na paisagem permitem que o lugar do outro esteja no modo como olhamos através dele e não para ele.

Voltamos a olhar e a procurar a forma como habitamos.


João Terras
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