TEXTOS DOS CRIADORES
(2022)
O extensivo mapa de criadores constelados na Bienal de Arte Contemporânea da Maia (BACM) desdobra o sentido expositivo em direções múltiplas, auscultando a matéria tensa de que é feita a criação nas suas múltiplas origens.
Numa polifonia circular de vozes, as criações, direta e indiretamente, partem ou expandem-se do território da Maia e sua geografia maior para dele e com ele narrar possibilidades e análises do tempo presente. É desta amplitude polimorfa que se constitui o espaço assíncrono, mas uníssono, de uma Bienal e seus criadores, tal como sempre o foi o da arte.
Exposição
Páginas Inquietas
As enciclopédias, assim como os atlas, em último caso irão subsistir ao tempo pela inquietação das vertigens e diversidades das provas de vizinhança a que estão submetidos.
A BACM abre a sua exposição central com um corpo de mesas onde se depositam vários corpos gráficos e escritos, cartazes, grandes, pequenos, da mão e do bolso, do arquivo e da rua, da pilha e do público.
A compilação de imagem-publicação, que já resultou em exposição e publicação de Susana Gaudêncio e Mário Moura, percorre uma natureza amorfa de temas, tempos e direções: das revoluções ao pós-guerra, da exaltação e luta dos corpos sociais e políticos, às publicações marginais e desviantes, de resistência, insustentáveis e insubmissas - o atlas que abre a BACM antecipa o seu corpo de intenções central.
Aida Castro e Maria Mire
Não poderia ser de outra maneira que não de uma natureza bífida, de um olhar duplo, de uma projeção estereoscópica, de uma direção inconclusa e plural que se apresentam os eixos matrizes do fazer coletivo de Aida Castro e Maria Mire. Num mundo em constante autojustificação e análise, em permanente fundamentação e descoberta, as criações da dupla concentram a sua energia na complexa e múltipla observação dos fenómenos humanos, animais e ambientais como prospeção de uma forma de vermos e entendermos o que nos rodeia de forma não linear.
Cruzando a imagem digital, a dupla e tripla instalação, unindo ecrãs a objetos reais, emergindo estas formas no espaço de exposição, convocando o som, a luz e a imagem num mesmo motor sinergético, os resultados finais apontam para universos abstratos e difusos, onde a definição e o concretismo das formas dão lugar à imprevisibilidade, ao transformismo, à diluição, para nestas ficções o olho entrar no seu campo de desvio ótico e nele imergir para aceder ao revés da realidade. Tal como na instalação concebida para a BACM, Aida Castro e Maria Mire, pulam do grande para o pequeno ecrã, convocam a natureza mecânica dos suportes técnicos em paralelo com a orgânica dos corpos vegetais, suportam-se na luz e no som para criar um lugar laboratorial e ficcional onde as narrativas se reescrevem.
Alisa Heil
Alisa Heil atua como artista num campo difuso entre criação e agente geradora de movimentos de encontros. É nessa dimensão constelar, xamânica e potenciadora que gravita tanto o seu trabalho individual, como a suas cocriações, na forma como entende o lugar de gestão de um espaço independente, no caso do seu mais recente Kunsthalle Freeport.
Interessa a Heil esse lugar de libertação no ato de criação assim como no ato de partilha, interessa a Heil essa vertigem da possibilidade do erro, do descontrolo, das impurezas e dos sincretismos, interessam os corpos plurais e a dimensão política do controlo dos mesmos. Nesta esfera de temas e orientações é através de uma prática cruzada - onde o desenho e a escultura exaltam - que a artista constitui as suas formas: seja pelo modo como recorre ao gesto primitivo da mão para desenhar ou modelar, seja pela forma inversa com que recorre à montagem e à composição unindo imagens, objetos achados, para com eles compor apofenias outras da realidade.
É nesse lugar acrítico da colagem e união, gerando novas imagens, que Alisa Heil instala nas laterais do átrio central do Fórum da Maia duas imagens bordadas, com a representação de um corpo indefinido ao seu centro. Convocando o corpo e as vestes, o significado e o significante das suas representações de apresentação social, voltamos a entrar no campo de uma imagem à procura da libertação da sua forma, criada a partir da união de partes múltiplas, reaproveitando o passado negado para pensar um futuro não especulativo.
André Sousa
Aquilo que André Sousa é - enquanto pintor, múltiplo e convexo nas formas - é alguém que continua a desenvolver essa longa e inconclusa pesquisa de que a pintura subsiste num extenso infortúnio da sua História. Interessa-lhe por isso essa indeterminação, interessam as paisagens, as figuras, a grande e a pequena escala, o óleo, o acrílico, o spray, o lápis e as aguarelas, interessa o tecido, o cartão e o papel, interessa a grafia e a colagem, a sobreposição e a diluição. Interessa a André, enquanto mediador do real, constituir lugares de sinapse entre o olho e o espírito (correndo para a tese de Merlau-Ponty).
Se é a pintura esse lugar indefinível, é também através da imagem em movimento, da forma, objeto e instalação que o lugar inenarrável da sua prática se orienta. A existir um eixo na sua prática será o da procura dessa inenarrável história da representação do real, assim como é pelo fascínio das naturezas míticas e fábulas, mesmo que destes pequenos eixos apenas se desenhe um breve início de viagem para as suas criações.
Para a BACM, as telas de André Sousa são também frescos de capelas e grutas, são tetos e alpendres de um fórum, são o hipotético e o surreal, o irónico e o contemplativo, onde a matéria sólida é substituída pela tela de desenho, onde as paisagens do litoral norte de Portugal, árido, ventoso e mitificado, são expandidas à ficção de habitarmos essa paisagem neste novo lugar convertido à leveza do sonho.
Lyz Parayzo
No decorrer dos anos de 1960 Lygia Clark ensaiava uma importante volta para o seu futuro, marcante e potenciador, com a criação dos seus Bichos. Os bichos de Pape exaltam um mesmo princípio que os instrumentos brilhantes, metálicos e espelhados de Lyz: a inclusão de um corpo híbrido, transformista, modelável, futurista, possibilitador. É essa a genética do molde destas formas, seres carregados de corpo e expressão sexual, cortantes, gritantes, potentes. Lyz Paraizo tem diluído essa fina barreira entre criação e ser. Os seus objetos, composições, vídeos e instalações são sempre performativos, pré, pós e devir performativos, são sempre o seu corpo em diálogo com o mundo, a sua dicotomia plural em diálogo com a norma conceptual. É esse corpo que ainda está aqui na BACM, nas formas, panfletos e imagens de Lyz é esse corpo que não desapega - corta, grita, potencia.
Mauro Cerqueira
Em último reduto, ao artista caberá sempre a tentativa de comunicar o mundo visível. Mundo esse constituído de colagens de corpos, espaços, tempos e estéticas. Nessa tentativa o artista parte da paisagem de onde se encontra para ficcionar um lugar outro, a-geográfico, indefinível. Foi do Porto que Cerqueira partiu mas nunca o definiu como um único centro.
A obra de Mauro Cerqueira vive deste modo nesse duplo olhar e fazer, tanto pela forma como agrega a própria realidade através do recurso a objetos do meio urbano, como pela forma como congela esses objetos nas intermitências do real.
Seja nas instalações expansivas nos espaços interiores e exteriores, seja nos espelhos a que tantas vezes tem recorrido como centro de uma periferia de objetos, as imagens constelares de Cerqueira parecem comunicar um tempo petrificado e estanque, escatologicamente uma pintura para uma arqueologia do novo século ou do futuro, pintura essa constituída por matérias de desvio, aceção e incongruência, para um mundo não tão ficcionado e distante como possamos acreditar.
Miguel Carneiro
Miguel Carneiro é um artista cuja a matriz se revela num tempo em que a luta pela criação se pretendia livre e independente, como agora. Ao longo do tempo a sua prática tem passado pelo desenho e a pintura, tanto na tela como nos suportes gráficos de impressão, publicação e difusão. Pelo ser dessa matriz, esta nova experiência gráfica de Miguel Carneiro orienta-se numa já longa caminhada em torno das práticas primitivas, populares, assim como num cruzamento estereoscópico das relações profanas e sagradas. Mesmo que numa direção outra, o ato de criar ex-votos continua próximo da sua identidade histórica, um atrás do outro, numa criação quase diária, na procura da cura pela pintura ou da sátira como cura.
Pedro Ruiz
A prática de Pedro Ruiz fala-nos dessa sombra da história da arte, desse mesmo gesto matricial e marginal onde todos encontramos este fazer, este modo de fazer: a fábula de para sempre estarmos conectados intimamente com tudo aquilo que nos envolve e insaciados por queremos o sabor do ainda mais.
Por isso, os seus objetos são unidos, assemblados desenhos e esculturas a partir do mundo que nos rodeia, de uma poética assombrosamente bela e trágica. Pedro Ruiz pertence a essa rara herança de artista, onde o ecossistema de vida e arte não se separa, abrindo portas ao mais íntimo dos segredos da criação. A verdade crua do gesto, o primitivo, o primário, o intuitivo e por isso o vital. Na BACM dá-se a ver este universo através da instalação também ela comunitária de vidros, uma das matérias mais finas e tensas das suas composições, delegando os corpos a esse material brilhante, translúcido, quebrante e de contraste entre leveza e tensão.
Coletivo Lab.25
É comum à prática dos coletivos o sentido de gravitação em torno de uma pesquisa, mesmo que de olhares plurais e diversos se componha esse olhar. No caso do Coletivo Lab.25 esse olhar emerge enquanto laboratório de experiências e experimentações, tanto ao nível dos materiais como das naturezas e teorias especulativas. De forma plural os artistas Álvaro Oliveira, Maria Guimarães, Miguel Teodoro, Rodrigo Machado e Rui Mota, têm orientado o seu foco no seio deste laboratório para a pesquisa intensiva do território das relações que este tece com a sua memória e passando, criticando e auscultando as suas possibilidade no futuro. É nesse campo de pesquisa que as formas, oscilando através da escultura, do objeto, do vídeo e da fotografia, resultam instalações tal como vemos na forma modelar apresentada para a BACM, possibilitando através da fruição estética uma narração do passado industrial e fabril da cidade da Maia.
J.O. Câmbios
Desde há muito tempo que José Oliveira nos tem receado com o éden de uma arte por vir, constituindo fluxos outros para o sentido da criação e receção da matéria criada. Revirando o ecrã das imagens, dirigindo num mesmo sentido aquele que vê e o que dá a ver, procurando o contrapeso e a moeda de troca - como em J.O.Câmbios - para as valências fortuitas deste mundo, ironizando, possibilitando, oferecendo, o artista têm esticado a sua ação até circunscrever de forma ampla a sua prática, numa deriva onde quase sempre o real habita de forma plena e não menos cruel sobre nós.
Quase sempre, habitar os seus lugares torna-se numa ode ao vão sentido de nos questionarmos, tão vitalmente, para onde corremos e porque criamos.
Estes espaços cambiais entre criação e real são ainda o lugar que diligentemente José Oliveira afirma como o lugar da arte: centro de gravitação genuino, real, que com subtileza camufla com uma ficção escancaradamente habitável. Em vã memória, que a palavra não se esgota, ainda estamos nesta instalação de espera, fazendo do tempo de permanência o tempo que por cá nos valerá de troca.
Neste circuito na BACM, J.O. Câmbios reinstala um das partes da exposição “Offside Paradiso” agora pensada para segundo momento depois da sua primeira apresentação no Espaço MIRA em 2020.
José Taborda
As formas escultóricas de José Taborda agem algures entre o erro e o lapso da composição do real. Meta e surrealmente, concreta e ironicamente a dialética representacional das suas esculturas-imagens existe na produção constante de relações miméticas com o nosso imaginário. Tanto em Motoserra (2021) mas sobretudo em Camera (2019), a imagem referência é utilizada para aceder ao significado, ou seja, significado e significante (para recuperar Lacan) numa mesma forma e momento. Por tal natureza será nesse lapso de tempo, entre a perceção do erro e a identificação da imagem, que as esculturas de Taborda melhor existem, enquanto geradoras de constantes formas em constante cinematografia. Tal como em Camera, para a Bienal da Maia, potenciando o lugar simbólico da cultura helénica.
João Campolargo Teixeira
Muitas serão certamente as possibilidades de olharmos uma escultura. Ensinou-nos a prática que a genética desta forma de criação está além da sua possibilidade tridimensional. Em toda a sua existência a escultura é antes e além mais, sempre e em todos os tempos, desenho e escrita. João Teixeira tem precisamente situado a sua prática neste corpo indefinido em que a escultura poderá existir. Seja na forma como tenta com ela definir o corpo do som, na forma como tenta com ela definir o corpo do tempo, seja na forma como tenta com ela definir o corpo do território ou da arquitetura. As criações escultóricas no final são muitas das vezes matrizes de vários corpos, som, tempo e espaço: som enquanto escultura, tempo enquanto possibilidade de forma e espaço enquanto expansão da sua possibilidade de observarmos através da especulação de uma forma criada.
Para a BACM, João Teixeira parte de um desenho de uma planta ateniense da sua Ágora projetada aproximadamente 300 a.C. A forma final, entre estrutura, som e luz, resulta dessa inversão da planta de dois edificados para a verticalidade da forma da escultura. Por sua vez é na ficção da escultura que o artista relê o espaço.
Ponto Parágrafo
Enquanto corpo de estudantes e pesquisadores, Ponto Parágrafo parte da unidade de medida, aqui a grade, para construir uma arquitetura no espaço exterior do Fórum da Maia. Essa unidade de medida, esse cânone, que serviria para as arquiteturas assim como para a análise dos corpos, foi durante todo o mundo clássico a definição da forma determinada. É profundamente revelador olharmos para as formas enquanto elementos de mediação e estrutura, tanto mais que a partir daqui podemos definir novos cânones.
Sara Rodrigues e Rodrigo Camacho
Em trabalho residencial e duracional entre abril e agosto, estratificando o território do Fórum da Maia e outros terrenos adjacentes a este em tempos de pausa, a dupla Sara Rodrigues e Rodrigo Camacho explanou a sua pesquisa em quatro pilares. É nestas edificantes formas que as imagens de observações microscópicas de amostras de solo retiradas dos terrenos, [GL1] Tem sido esta a prática do trabalho colaborativo destes criadores, agindo numa encruzilhada entre ciência e arte, não pelo cruzamento de áreas científicas mas na projeção de universos intercomunicantes, catalogando e mapeando uma série de território matéricos e sonoros, por um lado, e gerando outras formas estéticas e visuais a partir deles enquanto experiência de fruição e uma nova forma de perceção. O modo como através da ficção de conceitos científicos operam é a sua matriz.
Svenja Tiger
Existe uma preexistente dimensão do conto, da fábula, das narrativas circulares, dos bestiários, das histórias de orelha e difusão melindrosa da boca.
Desses imaginários fantásticos onde a ficção nos permite romper com a realidade, Svenja Tiger tem expandido o desenho dentro de uma dimensão performativa e cénica. Também o é, pois o corpo e a performance apresentam-se como matriz fulcral do seu código genético, no qual o corpo está para as imagens como elas passam a estar para o corpo. Surgem paisagens, cenários, telas e tendas, povoadas de seres, cores, caminhando para a abstração e alegoria de uma ilustração outra.
Essa dimensão de imagem, desenho, bordado ou até mesmo pintura expandida, enquanto cenário e lugar de habitação é na BACM dimensionada pela forma como se expande por vários pontos da exposição central.
Sérgio Leitão
Não existe tempo a perder para se constituir formas, vãos e fachadas, cores e corpos das comunidades. Sérgio Leitão pertence a uma rara leva de artistas cuja matéria está intimamente ligada ao fazer prosaico e poético. O que saber da razão das coisas? Para a Bienal da Maia, tal como é comum à sua prática, devolve novamente as imagens do real através de um atlas de composições modelado pela memória e pelo arquivo, como se o passado fosse essa matéria de possíveis e novas remontagens para legar um futuro crítico. Almanach a três lugares, exterior, interior, imagem de jornal, cartaz e difusão viral no email, como se a arte fosse possível. [GL2]
Vítor Israel
É de um constante processo de avanços e recuos, afirmações e negações que Vítor Israel tem orientando uma outra forma de olhar a pintura, se é que ainda vamos com tempo para ela. Num dos jardins interiores do Fórum da Maia, é no sentido inverso à cor e ao plano que Israel incesta a terra com múltiplas esculturas em gesso cru. Ainda foram a tempo do gesto veloz do spray a negar a crueza daquela necrópole de troncos/t-shirt. Mesmo em silêncio, pesada e silenciosa, esta equipa ainda joga, doze camisas no total. De novo o jogo no mundo do artista como forma de olhar ociosamente o infortúnio do tempo e o mundo alheio.
InterStruct
Enquanto olhar coletivo, os InterStruct funcionam como plataforma de criação, educação e mediação assente numa autogestão comunitária. Deste resultado os InterStruct não encabeçam nomes mas antes práticas que agora e no futuro terão várias dimensões de apresentação possíveis. Da palavra ao encontro, da escrita à difusão, como também na performance, no vídeo e na instalação, em foco encontram-se as reflexões pelas narrativas discursivas autoimpostas pelos corpos dominados, as aceções históricas e as necessárias revisitações e releituras dos discursos dominantes. Esse olhar coletivo em autogestão tem permitido o resultado de instalações vídeo enquanto lugares mnemónicos, onde várias camadas são submetidas ao mesmo tempo. Para a BACM essa narração plural é reduzida à forma e à colagem de um objeto, um discurso e uma prática. Quebra, discursa e compõe. O galo, o discurso ditador e a prática ancestral da colagem da porcelana. Parte, discursa e sara. A quebra dos símbolos mas também a sua reconversão, a sua releitura, a sua colagem, a sua nova possibilidade de apresentação. Enquanto quebra configura uma nova narrativa possível.
Rodrigo Paglieri
Tal como no projeto da sua rádio nómada, a instalação escultórica que o artista Rodrigo Paglieri apresenta à entrada da exposição central da BACM é também uma criação da natureza da recolha e acumulação, do arquivo e documentação do local. A esfera de feno colhida nos terrenos baldios da Maia convoca esse passado histórico dos lugares adjacentes à cidade do Porto, assim como também convoca os tempos pré-industriais de toda esta metrópole. Documentando, gravando ou acoplando, Paglieri redige e arquiva o agora para o tempo de um atlas hipotético, função de acumulação, aquela que será a do lugar do artista a tempo inteiro.
Paralaxe
O projeto investigativo e artístico Paralaxe das artistas Luísa Abreu, Diana Geiroto e Carolina Grilo Santos, iniciado em 2020 pelo estímulo coletivo em torno das ficções e possibilidades emergidas no Instituto Geofísico da Universidade do Porto (IGUP) e no seu especulativo Observatório Astronómico Prof. Manuel de Barros, em Vila Nova de Gaia, projeta o seu mapa de investigação para a cidade da Maia. Tal como à prática das três artistas que compõem o núcleo central de Paralaxe, a análise do território, o mapeamento dos espaços e a recuperação das formas do real são referências centrais no fazer artístico individual. Em pensamento coletivo, e partindo do universo desportivo que encontramos no imaginário da cidade da Maia, projetam um trampolim enquanto um novo instrumento de método e objetivo, aqui convocado a uma nova condição, novamente ela especulativa, possibilitadora e crítica.
Francisco Venâncio
Existe um devir arqueológico na forma como o desenho existe na prática de Francisco Venâncio. As suas compilações de formas, cores e pontos resultam na complexificação de um ampliado alfabeto de signos.
De forma expansiva na BACM esses signos povoam um outdoor, local de difusão e comunicação de massas, onde a escala, a cor e a forma são pensadas ao mais profundo ponto da sua melhor possibilidade de destaque. Por sua inversão, os signos de Venâncio, monocromáticos, evidenciam a escrita de uma linguagem não discursiva, uma linguagem possibilitadora e livre de aceções, um abecedário de formas e pinturas onde uma nova forma de comunicação, agora e para o futuro, ganha espaço.
Dentro
Encontramos a Dentro no 1º Andar da Rua do Almada no Porto. Abrem-nos a porta, do lado de dentro de um atelier convertido em espaço de intervenção híbrido em formato de galeria. A história dos espaços independentes, de artistas por artistas, é metástase da história inconclusa das gravitações da arte. A Dentro tem-se constituído enquanto esse lugar, projeto, inconcluso, indefinido, se é possível. Expandindo os seus lugares de apresentação entre o seu espaço físico e, durante o confinamento, nos meios digitais, como espaço gerido é constituído por artistas e é sobre ele que gravita uma constelação de criadores, alguns dos quais apresentados nesta sequência de vídeo-instalações que emerge precisamente dessa sequência de apresentações em confinamento pandémico denominadas por CONTER: são artistas que atuam de forma independente e falamos de Inês Tartaruga Água, Ivan da Silva e Carlos Trancoso, Inês Castanheira, Gaspar Cohen, Marta Arcanjo, Ruca Bourbon e Teresa Chow.
João Terras